No alto da SERRA DO SOCORRO, arredores de Torres Vedras

9.2.10

OPINAR SOBRE "ISTO"?


Tenho-me abstido de "opinar", é verdade. É que, tal como PedroTadeu diz hoje no DN, acho que estes homens devem estar loucos. Mas como isso é contagiante, acabei por perder o juízo. E aqui estou agora com este arrazoado, quando o melhor, se calhar,  era ficar calado, de volta dos poetas e da grande música. Lá está, isto pega-se.

Começo por avisar: não sou socratista! Mas... e que fosse! Ai de quem hoje se mostra da situação! Instalou-se em Portugal uma frente de oposição como nunca se viu: todos contra o PS! Não por ideologia - até porque o PS é o primeiro a não tê-la! - mas por oportunismo político. PCP, BE, CDS, PSD, todos na mesma equipa, aos pulos e aos gritos, clamando por D. Sebastião Cavaco, para que ele monte o cavalo branco e salve a Pátria.  Vale tudo! E como vale tudo - a começar pela vergonha das quebras do segredo de justiça que acontecem todos os dias! - vemos agora uma frente de indignação que passa pelo facebook, manifs, petições, etc, e que fazem de Manuela M Guedes, Moniz e Crespo os mártires da liberdade de expressão. Ao que chegámos!

Manuela Moura Guedes? Pois... parece que o país parava deliciado com aquela forma de fazer jornalismo judicativo, agressivo, tendencioso. José Sócrates não gostava, o que para o populacho era sinal de que a senhora Guedes estava cheia de razão. Eu e muita gente que conheço achava-a má jornalista, parcial e malévola. Não raro grotesca.Mas ...era contra-poder!
Moniz? Mais um dos que fizeram da televisão privada uma cloaca de mau gosto, para agradar aos públicos mais boçalmente ignorantes. Tornou-se, também ele, um paladino da verdade informativa!

Crespo? Com aqueles debates de uma côr só, desde que os convidados alinhassem nos preconceitos dele, evidenciados em tudo em que fala, desde a Educação à Economia? Que escreveu uma crónica patética sobre uma coisa que alguém disse que outra pessoa ouviu que lhe tinham dito... E que o director do JN sensatamente se recusou a publicar? Também ele transformado em mártir da asfixia democrática!

Nunca tanta gente disse tanta coisa com tanta liberdade! Qualquer um pode dizer as barbaridades que lhe apetecer. Não há perigo.
Mesmo quando se sugere, se insinua, se acusa, se alcovita àcerca de alguém. Tudo pode ser dito impunemente. No tempo do Camilo ainda era possível responder com umas bengaladas quando o desaforo ia longe de mais. Agora nem isso.

Acho que um bom jornalista deve ser como um bom árbitro de futebol: não se deve dar por ele. Não tem que opinar, a propósito de tudo e de nada. Mas não é o que acontece em Portugal. Alguns jornalistas, com o poder desmesurado que lhes é dado pela utilização dos media, tornam-se as vedetas, são eles próprios notícia. Logo aproveitados pelos políticos que não têm, nem de longe, o mesmo acesso aos meios de comunicação.
A uns interessa vender papel, aos outros a chicana política.
Quem pode governar uma freguesia destas?

Pergunto: goste-se ou não dele - caso Sócrates caia,  há por aí alguém à vista que lhe suceda com vantagem para o país? Estamos a ver Jerónimo de Sousa Primeiro-Ministro? Ou Louçã? Ou Manuela Ferreira Leite? Ou Aguiar Branco? Ou Passos Coelho? Ou o Rangel da claustrofobia?
Tenham paciência!

Calo-me já! Volto aos meus ricos poetas!

6.2.10

Vizinha Tem Cá Lume - Ronda dos Quatro Caminhos

Brilhante! Alguém sonhou um dia com esta novidade: um grupo coral do Alentejo canta ao som de uma orquestra!

A letra deste "cante" alentejano:

VIZINHA TEM CÁ LUME

Não sei se te diga adeus
Se te diga vou-me embora
E o amor que quer bem
Quando diz adeus já chora

Oh vizinha dê cá lume
P'rá acender meu candeeiro
Tenho o meu amor à porta
Quero-lhe ir falar primeiro

Quero-lhe ir falar primeiro
Porque é esse o meu costume
P'rá acender meu candeeiro
Oh vizinha dê cá lume

Não me lembra a minha terra
Nem a hora em que abalei
Só me lembram as saudades
Das gentes que lá deixei

Orquestração e arranjo - Pedro Pitta Groz Grupo
Coral de Balcizão
Solo - António Palminha
Alto - Jose Gasalho


IMAGEM DO MEU OLHAR ... presa por arames!

É uma aldeia a cerca de três quilómetros de Torres Vedras: Fonte Grada.
A fachada da sua igrejinha é muito bonita. Mas há cerca de seis meses o edifício abriu uma brecha... Agora está assim:




Deve ser a crise...

4.2.10

ESTAMOS CONFUSOS?

Na Madeira paga-se o IVA a 14%. No Cont'nente pagamos 20%!
Na Madeira há um governo autocrático que acha que a crise acaba quando Sócrates se for embora (palavras do chefe deles, ainda há pouco...).
No Cont'nente os partidos que não estão no Governo - sejam de direita sejam de esquerda -aliam-se porque também acham que a crise só acaba quando Sócrates se for embora.
Entretanto a Bolsa entra em choque e os estrangeiros que nos financiam levantam a voz. Gritam!

Aqui perto, num prédio de quatro andares, doze vizinhos não se entendiam por causa de um arranjo no algeroz. Preferiram contratar uma empresa de administração para fazer um trabalho simples de gestão de condomínio, pelo qual pagam caro. Agora falam mal da empresa de administração...

Falta-me imaginação para passar para o outro lado do espelho...

Pego nas POESIAS COMPLETAS  de António Feijó. Preciso de ar puro! Algo de diferente...
Ao menos este tem mais graça.


SAIAS



Amei-te de saias curtas,
No tempo em que eras menina;
Do quintal por entre as murtas,
Da praia na areia fina.

Depois, de saias compridas,
No tempo das ilusões...
Que beijos às escondidas!
Que valsas pelos salões!

Mais tarde, as saias estreitas,
Amei-te de travadinha...
Ó curvas mais que perfeitas!
Sinuosidade da linha!

Depois — a mim não te furtas!
Amei-te, passados anos,
Outra vez de saias curtas,
Mas com as botas de canos!

Já vês... que importam as saias?
A minha alma é sempre tua,
Tua, mesmo que tu saias
Nua, ou de calças, à rua!

Nua, sim! nua ou de calças!
Sedas e enfeites, que são?
Como as botas que tu calças,
Acessórios na paixão!

A essência é a chama erradia
Que o teu olhar acendeu,
E em mim fixou, certo dia
Que se encontrou com o meu...

Chama a tremer tão distante,
Tão longe, na Mocidade,
Como uma estrelinha errante
No céu da minha saudade.

António Feijó, POESIAS COMPLETAS,
Ed. Caixotim, s/l, 2004

Cartoon de NOVAES
http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://novacharges.files.wordpress.com/2008/07/donalisa3.jpg&imgrefurl=http://novacharges.wordpress.com/category/charge-jb/&usg=__mO7DJf-alV0lf9LwSfNVPYnL8-0=&h=500&w=441&sz=288&hl=pt-PT&start=41&sig2=5wAUuIC4hGsOq69AeAfxsg&itbs=1&tbnid=T-cW813dGVwclM:&tbnh=130&tbnw=115&prev=/images%3Fq%3Dtrovoada%2Barte%2Bpintura%26gbv%3D2%26ndsp%3D18%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26start%3D36&ei=3ElrS5n0EsuNjAeu4NnMBA

2.2.10

QUANDO IL EST MORT, LE POÉTE...


Morreu hoje Rosa Lobato Faria. (1932 - 2010)
Escreveu poesia, romances, peças de teatro, letras de canções...
Foi atriz de teatro, cinema e televisão.

Autora de referência? Não ficará na História da Grande Literatura mas deixou obra que vale a pena conhecer. Porque se não foi inovadora nos temas e nas formas, soube manejar muito bem os instrumentos da escrita.


Recordo dois poemas de Rosa Lobato Faria, insertos na antologia CEM POEMAS PORTUGUESES NO FEMININO, ed. Terramar, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria:



Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.



****************************************



Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
e vais à cave içar o teu malão.

Mas como destrinçar os nossos bens?
Que livro? Que lembranças? Que papel?
Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens.
Não te devolvo - é minha! - a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho,
não sei se o queres levar, já está no fio.
E o teu casaco roto, aquele vermelho
que eu costumo vestir quando está frio?

E a planta que eu comprei e tu regavas?
E o sol que dá no quarto de manhã?
É meu o teu cachorro que eu tratava?
É teu o meu canteiro de hortelã?

A qual de nós pertence este destino?
Este beijo era meu? Ou já não era?
E o que faço das praias que não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?

De quem é esta briga? Não me lembro.

1.2.10

SAUDADES DE ONDE NUNCA FUI

Machado de Assis


Quando estudava História na Faculdade de Letras de Lisboa encontrei-me com o Brasil. Foi o primeiro encontro a sério, porque antes eu sabia apenas a história do Pedro Álvares Cabral. Note-se que há 40 anos o mundo era incomensuravelmente maior. O Brasil ficava mesmo do outro lado do Atlântico. Vinte anos antes de eu nascer tinha havido aquela aventura de dois malucos com uma máquina voadora, a ligarem Portugal e o Brasil. Longe, muito longe!
Ia eu dizendo: na Faculdade de Letras tive uma disciplina de História do Brasil e outra de Arte Portuguesa e Ultramarina. Foi a descoberta! - anos antes de outra, a da grande Literatura brasileira, com esses monstros sagrados do Eurico Veríssimo, Machado e Assis, a primeira fase de Jorge Amado, Mauro de Vasconcelos...
Então estudei alguma coisa desse enorme e atraente país dos "portugueses à solta"! Ouro Preto, Olinda, Recife, Baía... Nomes que me incendiaram a imaginação. Porque era preciso usar de muita imaginação para descrever os monumentos, já que não havia livros com imagens de qualidade, nem se sonhava com o "google imagens". Esse mítico "Aleijadinho" que deixou obra espantosa em Ouro Preto e em Cangonhas do Campo! Eu só podia imaginar, enquanto lia páginas e páginas de descrições literárias...

S. Francisco de Ouro Preto

Há meia dúzia de anos tive um sobrinho a estudar no Rio de Janeiro e perdi a oportunidade de lá ir visitá-lo. Tenho vagos familiares afastados em Londrina e em S. Paulo. E acrescento agora uma enorme preguiça - e claustrofobia! - para me meter 9 horas num avião! Brasil, meu país sonhado e nunca vivido!


O acaso tem-me trazido gente bonita ao meu convívio da blogosfera, essa nova forma de viajar pelos afectos longínquos e pela cultura de cada vivência pessoal.
Nas ligações que marquei aqui no blogue vejo agora janelas abertas sobre esse mundo colorido e sedutor que é o imenso país das saudades do que nunva vi ao vivo!



Maria Betânia

Saravá, mundo de Maria Betânia ("sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu...") de Vinicius de Morais, de Drummond de Andrade, de Chico Buarque, de Tom Jobim, de Caetano Veloso, de Élis Regina, tantos, tantos outros. Saravá!

29.1.10

NAS BERLENGAS, COM RAUL BRANDÃO


Li Raul Brandão pela primeira vez num manual de Língua Portuguesa. O texto, do livro "Os Pescadores", era a célebre descrição do encontro do narrador com o faroleiro da Berlenga.
 Sempre que o releio renovo a primeira e inesquecível impressão: a poderosa sugestão visual das palavras, o contra-ponto de duas visões opostas, o faroleiro em duas ou três pinceladas incisivas...
Não resisto a deixá-lo aqui.


O FAROLEIRO DAS BERLENGAS


Se houvesse justiça no planeta, eu já tinha sido nomeado vereador deste castelo, onde vivem três veteranos que de velhos criaram musgo — ou pelo menos faroleiro. Como sou um contemplativo, o lugar convinha-me perfeitamente. Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado De Inverno nenhum barco atraca às Berlengas. Só e Deus no mais belo sítio da costa portuguesa!... Atrevo-me a falar a um velho musaranho, de focinho arreliador, que está metido no farol, de costas para o mar, fingindo que me não vê, a esfregar e a polir os metais reluzentes.

— Hein?...

— Hum!...

Rosna e não diz palavra que se entenda.

— Olá!

Olha-me com desprezo e continua a polir os metais já polidos, como se eu não existisse. Mas não desanimo facilmente e teimo:

— Que beleza, han?!...

Toquei-o. O homem sacode os ombros, levanta-se, atira o pa¬no fora, encara-me de frente, com os bigodes assanhados entre as rugas e um olho azul de faiança cheio de cólera:

— Que beleza o quê? Que beleza?... Isto?! — E ri-se. — O vento e o mar! Sempre o vento e o mar! O vento, que no Inverno não me deixa chegar à porta, e o mar todo o dia, toda a noite a bramir! O mar desesperado, o vento desesperado... Eu não sou um faroleiro — sou um náufrago. Que beleza, hein?... Nem posso dormir! Nem dormir! Toda a noite o vento uiva, toda a noite o mar ecoa, ameaçando submergir esta ilha do diabo!...

Julguei-me autorizado a interrompê-lo:

— Mas no Verão é esplêndido...

- Nem olho. Só me resta uma esperança — fugir. Se não me mudam, endoideço. O amigo sabe quantos endoideceram já? Três!...

E atirando os braços para o ar:

— Uma calamidade! Aqui não se sabe nada, aqui não chega nada. Nunca! Nunca! Nem a pneumónica aqui chegou. E não posso ter uma couve, não posso ter uma abóbora... Os coelhos devoram tudo. É uma praga!

— Dê-lhes tiros.

— Tiros?! — E ri-se com dois dentes e desprezo. - Quando quero um coelho, ato um anzol a um pau, meto o pau na lura e tiro o coelho para fora; quando quero um peixe, ato um anzol a uma linha e deito a linha à água... Mas o que eu quero é fugir! Fugir! Fugir para muito longe, para onde não ouça o mar, para onde não veja o mar!

Roncou... Percebi que repetia com escárnio: — Que beleza, han!... — E voltando-se, outra vez com o pano na mão, continuou a esfregar e a polir com desespero os metais — de costas viradas para o mar...

E se o Dr. House fosse feito nos Açores? Uma gracinha para descontrair...

Tempos houve em que as minhas anedotas preferidas eram de micaelenses, com seu linguajar típico.
Hoje encontrei esta gracinha no blogue da minha amiga Adriana (ver o link "O amor pelos clássicos").
Atenção: gosto muito dos Açores. Espero que ninguém se melindre...
Deliciem-se com esta dobragem brilhante.

26.1.10

O AMOR EM PALAVRAS


Foto José D. R. Neca, in: OLHARES fotografias online, 24-12-2008


Gastas, tão gastas, as palavras. Quantas vezes só o silêncio exprime um sentimento que não (nos) cabe em palavras!
Tropeço no texto de Raul Brandão "O SILÊNCIO E O LUME", escrito em Dezembro de 1924, inserto no Vol II das suas "Memórias". As longas noites de Inverno, diante do lume, com Maria Angelina, a mulher amada.
Fico em silêncio. Ah!

«Cada vez me aproximo mais de ti. O que há de puro em mim a ti o devo. És limpidez e ternura.
Eu exagero sempre a dor, tu nunca te queixas. Andas nas pontas dos pés. Mal respiras — e estás sempre presente. Tens uma capacidade para a dor que eu não possuo.

Tudo em ti se faz naturalmente, tão naturalmente que nin¬guém dá por isso. A tua bondade não é um esforço. E é-te tão fácil partilhar a desgraça e as penas dos que se aproximam de ti!... Ninguém te vê e fazes-te sentir em toda a casa. Aquece--la. Estás em toda a parte, e ao mesmo tempo a meu lado. És como o ar que respiro.

Qual é a fonte escondida da tua vida, só o sei agora. Nunca pensas em ti — pensas sempre nos outros, ocupada num de¬ver a cumprir, não como dever, mas como instintiva com-preensão da Vida.

Já uma vez te propus matarmo-nos ambos, para penetrar¬mos mais depressa noutro mundo que adivinho esplêndido. Matarmo-nos não por horror à vida, mas por amor à vida. A outra vida maior. E não só por isso —: para ver a tua alma na sua completa nudez.»
(in: MEMÓRIAS, Tomo II)


"Maria Angelina e Raul Brandão", quadro de Columbano


«Nas caladas noites de Inverno, quando despego o olhar dos papéis, encontro sempre os teus olhos que me envolvem de ternura. Isto é quase nada — e revolve o mundo. E saudade, e a vida que passa e a morte que se aproxima, enquanto o tronco arde no lume, o pinheiro estala ou o carvalho amorroa. De fora vem o hálito da floresta e das águas. Mais silêncio... Surpreendo-te então a repetir o meu pensamento, ou é o teu que me acode ao mesmo tempo. Não fales! Outra figura trans¬parece atrás da tua figura. Nesse momento até o lume parece encantado e ficas tão linda que antevejo a vida misteriosa que me fascina e deslumbra. Isto só dura um segundo. Mas basta às vezes que sorrias e é a tua alma que sorri, basta às vezes que não fales e é a tua alma que me fala! Nesse momento somos um ser: eu sou tu, tu és eu; tu sorris, eu sorrio... Então cai sobre nós o silêncio — e eu descubro o que só nos é dado ver depois da morte, a amplidão das almas, seu poder magnético e, num deslumbramento, ao lado da existência pueril, a imensidade do universo e o infinito que nos rodeia e de que perdemos a sensação pelo hábito. A casa, que tem raízes de granito, voga no éter arrastada num turbilhão que me mete medo... Alguém nos vai bater à porta... Alguém se aproxima pouco e pouco num cerco que se aperta e em passos tão leves que mal se ouvem... Rodeia-nos o silêncio vivo, alma do mundo, o silêncio que é talvez o que eu mais amo na aldeia, este silêncio perfumado que envolve a nossa casa na solidão tremenda da noite: mais perto de mim arfa alguma coisa de religioso e profundo: — sinto a Vida e a Morte. Sinto-as enquanto a última brasa se apaga e as tuas mãos se agarram às minhas mãos de velho.»

(in: MEMÓRIAS, TOMO II)

22.1.10

O SIM E O NÃO


"Pessimismo e Optimismo", Giacomo Balla, 1923


O Venerando,AQUI    /   O Cantigueiro Samuel, AQUI   /   Juvenal, AQUI  /   Cid Simões, AQUI

Nas palavras que vou lendo encontro a indignação, a denúncia, a revolta. Um apelo à sublevação interior na forma de consciencialização e a crença de que isso significará passagem à acção transformadora.
Admiro o optimismo destes "crentes", a persistência na ideia de luta. Pelos interstícios, é certo, assoma aqui e ali a impaciência face aos "lorpas" que se deixam manobrar, aos "fracos" que abandonaram a primeira linha.
Mas admiro, de facto, a generosidade destas palavras que nos fazem crer que todo o homem é bom, só uma minoria é corrupta e exploradora da maioria. O que me leva a ter saudades do tempo em que, também eu, tinha essa fé inocente na bondade do ser humano, no bom selvagem que todos somos quando saímos à luz após os nove meses de paraíso.

O que me fez mudar?
O estudo da História. Longe de me confortar com a ideia de que a Humanidade caminha do escuro para a luz, esse estudo mostrou-me que, quase sempre, o homem é lobo do homem. Só uma minoria se eleva acima da lei da selva e compreende que a Humanidade pode ser outra coisa.
É certo que houve progressos, mas eles apenas chegaram a uma minoria da Humanidade.
Ao ler e reler Raul Brandão ( "A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos"...etc), sinto que o mais profundo do meu sentir a História está aqui bem expresso. Vem ao encontro do que penso e sinto.

Optimismo, apesar de tudo?
Sim! Por imperioso dever cívico. Porque o pessimismo não melhora as coisas.
Cerrar os dentes e calar o negrume das palavras de desistência. Porque...« é preciso acreditar que SIM, apesar de sabermos que  NÃO..."

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Já depois de ter publicado este post, peguei casualmente num livrinho com textos dispersos de Fernando Pessoa, intitulado "Sobre a República". Logo numa das páginas iniciais encontro isto:

« Toda a tristeza é reaccionária; todo o pessimismo é retrógrado - porque, como sentimentos, pertencem sempre à corrente social que é desintegrante na vida das sociedaddes.»

Tudo dito!

19.1.10

Paul Cézanne







Nasceu em 19 de Janeiro de 1839. Pós-impressionista, abre caminho às novas tendências da pintura ocidental do início do século XX, nomeadamente o "cubismo".
Les joueurs é um dos seus quadros mais conhecidos.  Percebe-se porquê...

17.1.10

A HISTÓRIA É DOR - Raul Brandão


Pollock



De volta de Raul Brandão ( 1867-1930) por causa do seu EL-REI JUNOT, dou-me conta da modernidade deste homem. Bebeu no pessimismo finissecular dos "nefelibatas" ( os que andam nas nuvens), mais por rebeldia juvenil do que por desistência existencial, e entrou no novo século sob "o estandarte de seda branca da Arte Moderna". Amanuense militar por imposição familiar, era nas Letras que terçava armas. Em 1910 saudou a República e reformou-se da tropa para escrever uma obra que chega até nós com  inesperada actualidade. Para mim, pelo menos.
A dor e o espanto de existir. A vida como farsa grotesca temperada de ternura se pensarmos nos pobres e abandonados. A inevitabiliade da morte, vivendo com ela ao lado mas iludindo-a com a partilha de um amor perene - a sua vivência com Maria Angelina perdura ainda nas páginas luminosas que lhe dedicou.
Quando se debruçou sobre a História, (EL-REI JUNOT e VIDA E MORTE DE GOMES FREIRE), respeitou as fontes onde buscou informação mas mergulhou nos subterrâneos da alma humana, em busca do significado mais fundo dos acontecimentos. Visão impressionista da História, habitada por seres empurrados para o abismo da morte, movendo-se como títeres manobrados por forças incomensuráveis.

EL-REI JUNOT começa assim:

«A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos. Eis a árvore: na árvore todo o trabalho obscuro se congrega para produzir a flor. Os homens debalde se agitam, desesperam, morrem; a Ideia leva-os, espicaçados pelo aguilhão da dor, para um destino natural de beleza. Não passam de títeres: pensam que resolvem, são impelidos, e essa mescla, que um momento se atropela em cena — gestos, bocas amargas, farrapos tolhidos de dor e impregnados de sonho, essa nuvem de espectros agitados, desfaz-se logo em pó: as órbitas das caveiras que alastram a crosta terráquea não se despegam porém, di-lo Emerson, das estrelas do céu. Fica uma ideia no ar — fica um rasto na terra: a dor transmite-se.

Todo o século XVIII resume-o na luta da Revolução contra fórmulas arcaicas. E isto é ainda uma aparência: mais fundo deparas sempre com a máscara impenetrável da dor.
O homem tem atrás de si uma infindável cadeia de mortos a impeli-lo, e todos os gritos que se soltaram no mundo desde tempos imemoriais se lhe repercutem na alma. — É essa a história: o que sofreste, o que sonhaste há milhares de anos, tacteou, veio, confundido no mistério, explodir nesta boca amarga, neste gesto de cólera... Não é inútil nem sofrer, nem fazer sofrer, e não há gri-to que se perca no mundo. Nem o mais ignorado, nem o mais humilde. Escusas de te rir... E todo o esforço humano é no fundo uma lenta aproximação de Deus, assim como tudo na vida se resolve segundo a forma por que cada um encara Deus... »

14.1.10

HAITI



Ajudar ! Ajudar ! Ajudar !
Um povo martirizado pela História. Um povo martirizado pela Natureza.

MAPA ETNO-MUSICAL




Um sítio a visitar, para quem gosta de música tradicional portuguesa. Por trás deste magnífico trabalho está Júlio Pereira. AQUI







13.1.10

ZOLA E O CASO DREYFUS - Porque hoje é 13 de Janeiro


Émile Zola: 1840-1902



Émile Zola, conhecido pelos seus romances que deram origem à escola literária naturalista, foi um cidadão politicamente activo. A sua carta "J'accuse", com que interveio decisivamente no "Caso Dreyfus", permanece como um exemplo de coragem pública, na denúncia de uma situação que apaixonou a opinião pública da época.
Transcrevo um texto do livro  "365 HISTÓRIAS DA HISTÓRIA"( W.B. Marsh e Bruce Carrick, Bertrand Editora, Lisboa, 2007):


« 13 de janeiro de 1898. Esta tarde, 300 000 exemplares do jornal L'Aurore encheram as bancas de Paris com a força de uma explosão. Na primeira página, publicava-se um artigo que era a notícia do século. Sob o título «]' accuse», o artigo acusava os chefes do exército francês de tramarem um inocente capitão do exército, acusado de traição em 1894 e depois, quatro anos mais tarde, de encobrir o seu delito conseguindo a absolvição de um outro oficial, que sabiam ser o culpado.

O desditoso capitão era, evidentemente, Alfred Dreyfus, o único judeu no Estado-Maior do exército. Condenado como espião por ter passado para a Alemanha segredos da artilharia francesa, foi condenado a prisão perpétua na Ilha do Diabo. O homem que o defendia com «]'accuse» era o grande escritor francês Emile Zola.

O exército reagiu rapidamente ao artigo e processou Zola por difamação. Foi condenado e, prevendo que o recurso iria ser recusado, procurou segurança em Inglaterra. Zola não era o primeiro Dreyfusard (apoiante de Dreyfus), mas o caso Dreyfus — l'affaire, como ficou conhecido em França — ganhou enorme publicidade ao terminar de forma tão dramática. A seu lado, estavam homens como Georges Clemenceau, Jean Jaurès e Anatole France. Estes e outros Dreyfusards tiveram de enfrentar a opinião pública, conotada com o anti-semitismo, que acreditava na rectidão do exército e na culpa do capitão.



Richard Dreyfus: 1859-1935


O país ficou profundamente dividido e decorreu muito tempo até se fazer justiça. Antes de isso acontecer, Zola morreu em 1902, asfixiado pelos fumos de uma chaminé defeituosa (alguns defenderam que os antidreyfusards tinham bloqueado a tiragem). Mas nessa altura já a causa que ele defendia tinha ga¬nho muita força.

Dreyfus foi julgado uma segunda vez e novamente foi declarado culpado; mas desta vez, devido a «circunstâncias atenuantes», foi condenado apenas a 10 anos de prisão. Muitos foram os que perceberam que as atenuantes no caso foram a inocência de Dreyfus. De saúde muito debilitada, aceitou o perdão do presidente de França. A certa altura, o oficial culpado confessou qual fora o seu papel. Em 1906, Dreyfus foi ilibado de todas as acusações por um tribunal francês. Foi readmitido no exército, promovido ao posto de major e condecorado com a Legião de Honra. Serviu durante a Primeira Guerra Mundial como tenente-coronel.»

11.1.10

Adamo , Tombe la neige

Com tanta neve nos telejornais acabei por me pôr a trautear esta velhinha canção de amor perdido...

9.1.10

AFINAL QUEM TINHA RAZÃO?





Das duas uma: ou a anterior equipa do ME era incompetente ou... é esta equipa que o é.


Do meu ponto de vista, o (mau) desempenho da equipa de Maria de Lurdes Rodrigues em relação aos professores teve uma origem: desconhecimento do modo como funcionam as Escolas e da especificidade do trabalho docente. Nenhum deles esteve numa escola do Ensino Básico ou Secundário, a trabalhar no duro, muitos anos seguidos. Daí que só tenham tido apoios de quem, como eles, tem o mesmo desconhecimento. E daí, também, a enorme onda de contestação da esmagadora maioria da classe docente, revoltada por se ver governada por quem não sabia do que estava a tratar.
As pessoas que usam o argumento de que os professores devem ser avaliados de forma igual às
dos restantes funcionários públicos (Miguel Sousa Tavares, por exemplo...), fazem-no porque também desconhecem o que é uma escola. Falam a partir de preconceitos, ou baseados na sua experiência como alunos, sem terem em conta as alterações brutais decorrentes da nossa forma actual de viver em sociedade. São o tipo de pessoa que acha, por exemplo, que a indisciplina nas escolas se resolveria com duas lambadas no aluno mal comportado. Ouço isto todos os dias...

E o senhor Sócrates, que diz ele? Demite a actual Ministra da Educação, para ser coerente com o apoio total que deu à anterior? Ou reconhece que estava errado e explica a sua mudança de atitude?

8.1.10

Poema Para Galileo

Galileu morreu em 8 de Janeiro de 1642. Recordemos o homem que rasgou os véus do obscurantismo e abriu o caminho à Ciência moderna.
E o poema de António Gedeão, na voz inesquecível de Mário Viegas.

Poema para Galileu . António Gedeão




Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão




O quadro acima, pintado por Cristiano Banti em 1857, mostra Galileu Galilei diante da Santa Inquisição. Galileu foi obrigado pela Igreja Católica a renegar tudo o que dissera em favor da teoria heliocêntrica. Reza a lenda, porém, que ele teria dito a meia-voz, referindo-se à Terra: "E no entanto ela move-se".

Lhasa - Rising (Official Video)


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Lhasa de Sela faleceu em 1 de Janeiro deste ano, com 37 anos, vítima de cancro na mama.