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8.12.10

UMA VOZ LÚCIDA







Não gosto do estilo do homem, demasiado "produzido"... Deixando este preconceito ad hominem, gostei da entrevista de Manuel Maria Carrilho à VISÃO de 2 de dezembro último. Destaco:

«Sou completamente a favor de um PS que retome, com os olhos bem abertos para o mundo de hoje, a sua inspiração histórica e ideológica. Fui sempre muito crítico do socialismo «moderno». A «modernidade» deste socialismo pareceu-me sempre apoiar-se em duas coisas: por um lado, numa abdicação em relação aos grandes valores do socialismo, à sua matriz igualitária, e às suas grandes causas, como a igualdade, a educação e a cultura. E, por outro lado, numa abdicação perante o poder financeiro e tecnológico. O socialismo «moderno» pretendia-se arejado, descomplexado - mas tudo não passava de deslumbramento com o poder tecnológico e financeiro. O deslumbramento em política é muito negativo. Mas é típico de pessoas com pouco conhecimento da História, que não têm a perspetiva do futuro, que só respiram no curto prazo, que avaliam necessariamente mal as coisas. Não foi por acaso que tive outra opção, em 2004, quando se sufragou o socialismo “moderno” ».

(…)

«Vários políticos, nacionais e estrangeiros, diziam nessa altura que a política ia voltar. Como se a desregulamentação, a ideologia neoliberal não fossem elas próprias políticas... É muito dececionante o que se tem passado internacionalmente, no G20 e na União Europeia. Estamos quase exatamente no ponto em que estávamos há dois anos. E não deixa de ser preocupante que as soluções encontradas para os problemas sejam as mesmas por todo o lado, independentemente da orientação política dos governos. O que aconteceu foi que se esgotou aquilo a que tenho chamado o paradigma do ilimitado, tudo podia crescer sem fim: as matérias-primas, o consumo, o crédito, a dívida. Isso terminou. Desde os anos 70, o crescimento do Ocidente alavancou-se no crédito. Há um crescimento salarial até aos anos 70, depois ele estanca e começa o crédito. Mas se não há mais salário nem mais crédito, como crescer? Qual vai ser o motor do crescimento? Esta é a pergunta. Quanto a nós, é gravíssimo não se ter percebido tudo isto, e as suas consequências, a tempo. Agora deixámos de ter política. Quando só há orçamento, acabou a política.»

0 que se devia ter feito? (pergunta o repórter)

«Desviar, e há muito, o investimento do betão para a qualificação. Investir na criatividade e na formação como base da nossa produtividade e competitividade. Nas universidades, nas escolas, no pré-primário. Penso que foi um erro ter-se prolongado o ensino obrigatório até ao 12º ano, devia era começar-se aos 3 anos. Aí é que começam as grandes desigualdades. E não são as percentagens do PIB que interessa comparar, é a realidade. Vamos a uma escola alemã, e vemos o ginásio, o laboratório, a biblioteca, a mediateca, os instrumentos musicais, etc. Vamos à escola portuguesa e as condições são fraquíssimas, apesar de muitas delas terem agora sido recuperadas. Esse é o nosso maior défice, não é o orçamental. Desde o século XIX, o défice português é o das qualificações, quando a Europa do Norte já estava toda alfabetizada e nós ainda tínhamos 80% de analfabetos.»


Digo eu: uma das tragédias da política à portuguesa tem sido a descaracterização do PS, que fez dele um partido onde a fraseologia de esquerda é desmentida constantemente pela prática de direita. Essa ambiguidade, melhor, essa fraude ideológica, impossibilita qualquer política de alianças, seja à esquerda seja à direita. M. M. Carrilho refere-se também a isso noutro passo da entrevista:

«Criou-se em Portugal uma cultura política de crispação muito acentuada, que é preciso contrariar. Política é negociação. Os eleitorados cada vez mais se fragmentam. O grande tópico, e já há dez anos, na Europa, é como conseguir governar em maioria. Em minoria é uma hipótese que nem se põe.»