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28.2.13

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO


Torres Vedras, Fev 2013 - Foto J Moedas Duarte


Maria do Rosário Pedreira edita livros e escreve poesia. Tem um blogue que leio regularmente. De lá tirei este apontamento:




Há muito a ganhar na área cultural, como já sabemos. Andando pelas ruas de Torres Vedras encontramos pequenas preciosidades. Tão pouco que é tanto!

19.1.13

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA: PRÉMIO


Prémio Fundação D. Inês de Castro 2012 para Maria Do Rosário Pedreira pelo livro POESIA REUNIDA










“ (…) Estamos perante uma visão do mundo de feição romântica, que concentra no amor a justificação da existência. É certo que o romantismo nunca deixou de influenciar a poesia portuguesa, e que os neo-confessionalismos recuperaram o tema do sofrimento passional, mas as poetas têm-se mostrado reticentes a esse discurso que o feminismo estigmatizou, acusando-o de idealizar a mulher ou mitificar o homem, tornando-os criaturas falsas, alienadas. Em autoras mais novas, o lirismo amoroso, mesmo quando é sugerido, vê-se logo ironizado ou sabotado. Nesse sentido, a poética de Maria do Rosário Pedreira parece deslocada no tempo, e assume todos os riscos «intempestivos» de um aparente confessionalismo sentimental.” (do Prefácio, de Pedro Mexia)





Não digas ao que vens. Deixa-me 
adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou. É longe a
tua casa? Dou-te a minha: leio nos

teus olhos o cansaço do dia que te
venceu; e, no teu rosto, as sombras 
contam-me o resto da viagem. Anda,

vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo - é um
destino sem dor e sem memória. Tens

sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja - morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas 
quem és nem ao que vens. Decido eu.



(pág.158)

14.4.10

AGORA O CORPO É MAIS UM BARCO



Agora o corpo é mais um barco que se solta.
Nele navegam primeiro os olhos e os receios.
E só depois a polpa dos dedos, à deriva, que
é quem faz o sabor das ondas nesse mar.

Levamos-lhe uma luz que é como uma promessa:
uma pequena chama azul e inquieta que treme
dentro das mãos e faz a boca abrir-se para
a espera. E não sei o que longe da margem

ilumina depois os nossos gestos: talvez
apenas a pele prateada dos peixes, o fulgor
da lua sobre a água como um gomo cheio
a desafiar os lábios, os reflexos do frio
metal das âncoras sob o olhar das estrelas.

Repara como de repente ficou distante o cais
e o outro barco amarrado ao sono da noite.
Esquece-o para sempre. Agora, adormeçamos
simplesmente, docemente, em casas de sal.

Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros
Gótica, Lx. 2002



Foto © Méon

8.3.10

DE NOVO MARIA DO ROSÁRIO


Da nova geração da poesia portuguesa, Maria do Rosário Pedreira não se distingue pelas ousadias formais da linguagem ou pelas metáforas surpreendentes de sentidos ambíguos.
Do que gosto é da sua forma de dizer os sentimentos banais, de tal forma que parecem únicos e nunca vividos por ninguém.

Como aqui, por exemplo:

Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.

Maria do Rosário Pedreira

7.3.10

UMA GRANDE POETISA: Maria do Rosário Pedreira



Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.


Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis

que alagámos de beijos quando eram outras horas

nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse

de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa

ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia

assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu

tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que , como eu,

trazem entre as penas a saudade de um verão carregado

de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas

brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores

que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara

como o sal na baínha das ondas, e a cegueira sempre

me assustou ( e eu já ceguei de amor, mas não contes

a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem

toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me

que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos

como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois

os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar

para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando

na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas

que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,

ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

O Canto do Vento nos Ciprestes

4.11.09

UM FEIXE DE LUZ



Passei por AQUI e parei. Já a conhecia, foi um reencontro. Não por ela, mas pela VOZ que nos conduz às palavras estranhamente claras e exactas, neste tempo de poemas sem poesia dentro.
Eu tinha ido a Santa Cruz, uma das praias do litoral torriense, e trouxera imagens do sol a despedir-se por trás do mar e da renovada azenha.
Ofereço a imagem, peço de empréstimo o poema dela: Maria do Rosário Pedreira:

A INVENÇÃO DAS CLARABÓIAS

No princípio, aprenderam a ter medo e protegeram-se.
Construiram casas de pedra e lama, pequenos refúgios
onde não tardaram a sentir-se cada vez mais sós.

Sonharam que, um dia, um feixe de luz haveria
de afagá-los. E, fascinados pelo céu, desenharam
óculos pelos telhados.

Tiveram, desde logo, a companhia das estrelas.
Hoje os deuses ainda passam os olhos pelas suas casas
todas as noites, antes de adormecerem


In: A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS

Foto (C) MÉON, 2 Nov 2009

4.7.08


Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.



Maria do Rosário Pedreira
(Foto da net)


Às vezes é preciso ler palavras de desespero para entender toda a dimensão da vida. Sobretudo quando se está no lugar oposto do desespero...

29.6.08

"...eu estou aqui..."


Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor — a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmasda casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
(Maria do Rosário Pedreira)


Aparecem por aqui alguns comentários , em inglês, cuja finalidade é apenas abrir ligações sabe-se lá para
onde...
Daí a "moderação" que tive de introduzir, a contra-gosto. Temporariamente, espero...