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17.5.13

SURPRESAS!


Ontem: Nuno Júdice, premiado com o Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana. Um prémio de prestígio para a poesia portuguesa.








Hoje: nomeação de Manuel Clemente para Cardeal Patriarca de Lisboa. Para além da fé religiosa - assunto de foro íntimo de cada um - é meu conterrâneo, homem de cultura e diálogo, historiador. E um "homem-bom"!


Hoje, ainda: o reencontro, pelo fb, com um antigo colega de estudos, que já não via há mais de 40 anos!

Dias antes, havia reencontrado outro "velho" colega de profissão, que deu aulas em Torres Vedras no final dos anos 70.

A vida!

14.4.13

Como disse?


«Por muito menos que isto foi morto o rei D. Carlos.» 
(Mário Soares, entrevista ao jornal I, 13 Abril 2013 (Citado AQUI)

A resposta a esta infeliz observação de Soares encontro-a na entrevista de Nuno Jùdice à revista LER a propósito do seu mais recente livro, IMPLOSÃO:




«Neste livro, trata-se do tempo antes do 25 de Abril e do tempo atual. 
Qual é a grande diferença entre esses dois tempos? (jornalista)
Nesse tempo, havia um inimigo que era visível, tinha um rosto - o Salazar, a ditadura que tinha essa figura a representá-lo. Era relativamente fácil o confronto. Nós sabíamos quem estava do outro lado e sabíamos com quem podíamos contar para essa luta. Hoje não é assim. A troika não é nada, são umas instituições que têm umas siglas. Há o capital, os mercados. São inimigos anónimos mas muito mais poderosos porque não se sabe onde estão, circu­lam por aí pelas bolsas, pelos computadores. É uma sociedade em que o Big Brother, no sentido orwelliano, encontrou formas até muito mais perigosas do que as que ele inventou nesse livro. »



Também creio que, se o inimigo tivesse rosto definido, já teria sido defrontado com outros meios menos pacíficos. Os herdeiros dos conjurados de 1640 estão por aí, não duvido...

17.10.10

MEDITAÇÃO

 Não se anda a mostrar por aí. Não fica favorecido nas fotografias.
Parece olhar mas para dentro. Doutorou-se em literatura medieval. Dá aulas numa universidade de Lisboa. Publica há 38 anos: 31 livros de poesia, 13 livros de ficção, 10 de ensaios, 2 de teatro...

Chama-se Nuno Júdice.
É dele este poema, retirado do livro MEDITAÇÃO SOBRE RUÍNAS





A Voz que Nos Rasgou por Dentro



De onde vem - a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?


Esteve aqui — aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.


E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.


Diz: "Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos."

Como se a ouvíssemos.

Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"


Foto Méon



16.10.10

POEMA PARA ESTA TARDE






CONSTRUÇÕES


Prendo-me a uma coisa simples. Pode
ser o teu rosto naquele vidro, que eu vi
e não mais esqueci.

Faço do tempo um parapeito. E
debruço-me nele, à tua espera, sentindo
na madeira o calor do teu peito.

Ergo na areia um castelo de enigmas. E
fecho-te na sua torre, a castelã que me ensinou
a entrar sem saber por onde sair.

(Mas para que hei de sair
de onde quero ficar?)


Nuno Júdice,
Geometria Variável
Public Dom Quixote, Lx, 2005

21.4.10

MARÉ DE FLORES


Nuno Júdice é um nome incontornável na poesia portuguesa contemporânea.
Ontem, ao postar aqui o poema algo estranho de David Mourão-Ferreira, encontrei outro, com o mesmo título, do Nuno Júdice. É por isso que um dos meus desportos favoritos é vagabundear pelos livros cá de casa...

FLOR

Conheço uma flor de pétalas brancas
quando a corto do caule, amarelas
se a ponho ao sol, vermelhas ao
metê-la no cálice que ela enfeita.

E uma flor que tem todas as cores
que eu quiser, mas só ela mas
dá, quando a roubo ao seu jardim,
e só para mim brilha e floresce.

Esta flor é única: não seca
nem morre, e alimenta-se do que
lhe digo, em segredo, neste canto.

Há flores que não precisam de terra
nem de sol para viver. A sua terra
é o poema, o seu sol o amor que as faz crescer.

Nuno Júdice, O Breve Sentimento do Eterno

26.3.09

DESEJO...


Queria neste poema a cor dos teus olhos
e queria em cada verso o som da tua voz:
depois, queria que o poema tivesse a forma
do teu corpo, e que ao contar cada sílaba
os meus dedos encontrassem os teus,
fazendo a soma que acaba no amor.

Queria juntar as palavras como os corpos
se juntam, e obedecer à única sintaxe
que dá um sentido à vida; depois,
repetiria todas as palavras que juntei
até perderem o sentido, nesse confuso
murmúrio em que termina o amor.

E queria que a cor dos teus olhos e o som
da tua voz saíssem dos meus versos,
dando-me a forma do teu corpo; depois,
dir-te-ia que já não é preciso contar
as sílabas, nem repetir as palavras do poema,
para saber o significado do amor.

Então dar-te-ia o poema de onde saíste,
como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia
pela mão, contando os passos do amor.


Poema de Nuno Júdice
in O Estado dos Campos
Reprodução de quadro de
Noronha da Costa

3.9.08

À LUZ DA TARDE



«Puxo-te pela mão - e saímos da moldura, para dentro da vida.»


Do poema RETRATO DE MULHER À LUZ DA TARDE,
Nuno Júdice, in O Estado dos Campos, ed. Dom Quixote

18.6.08

CANTIGA


É pelo teu rosto em que as marés passam,
pelos teus lábios em que voam gaivotas,
pelos teus dedos em que a luz perpassa,
pelos teus olhos que me traçam as rotas,

que este barco encontra o caminho,
que este dia descobre que não é tarde,
que as palavras se bebem como vinho,
e o fogo não queima quando arde.

É no que me dizes quando a noite fala,
no que perdura da manhã que se esquece,
no que é dito em tudo o que se cala,
e não precisa de ser dito quando amanhece.

Pode ser o amor tantas vezes sentido,
ou só aquilo que vive no coração,
pode ser o que pensava ter esquecido,
e regressa agora pela tua mão.

Quantas vezes já foi primavera,
e logo aí as flores morreram:
até ao dia em que nada ficou como era,
e todas as folhas mortas reverdeceram.
Nuno Júdice, in: A Matéria do Poema, Dom Quixote, Lisboa, 2008
Foto(C) Capri: J. Moedas Duarte.