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4.11.12

ÚLTIMA PÁGINA






Imponente como final de sinfonia, a última página de PALMEIRAS BRAVAS, de William Faulkner:

«Pois não era só memória. Memória era só a metade disso, não era bastante. Mas deve estar algures, pensou. Há o desperdício. Não só eu. Pelo menos, eu acho que não penso só em mim. Espero não pensar apenas em mim. Seja qualquer pessoa, pensando, recor­dando, o corpo, as ancas largas e as mãos que gostavam de fazer porcarias e coisas. Parecia tão pouco, não era pedir muito, não era querer muito. Adiante do velho rastejar em direcção ao túmulo, o velho apegar-se, velho e enrugado, murcho, derrotado, ape­gar-se nem mesmo à derrota mas apenas a um velho hábito; aceitando mesmo a derrota para ser-se autorizado ao apego ao hábito — os pulmões ofegantes, as tripas incómo­das, incapazes de prazer. Mas, afinal, a me­mória era capaz de viver nas velhas entra­nhas ofegantes; e agora, de facto, estava ao alcance da sua mão, incontroverso e claro, sereno, a palmeira estralejando e murmu­rando seca e brava e tenuemente e dentro da noite, mas podia encarar. Podia, não. Hei-de. Quero. De modo que é afinal a velha carne, não importa quão velha. Porque, se a memória existe fora da carne, não será memória, porque não saberá o que lembra, de modo que, quando ela se tornou nada, então metade da memória tornou-se nada, e, se eu me tornar nada, então todo o recor­dar deixará de ser. — É... pensou ele, entre a dor e o nada, eu escolho a dor.»

FAULKNER, William - Palmeiras Bravas, col. livro de bolso, Portugália Editora, s/d

Foto(C)J Moedas Duarte

9.6.09

SE VÉNUS VOLTASSE


Textos inesquecíveis:

«Eliminámos o amor. Levou-nos muito tempo, mas o homem tem muitos recursos e a sua inventiva é ilimitada também, e assim a gente viu-se enfim livre do amor como nos vimos livres do Cristo. Temos a telefonia em lugar da voz de Deus, e em vez de pouparmos a moeda das emoções durante meses e anos para merecermos uma oportunidade de gastá-la toda em amor, dissipamos isso em moeda miúda e titilamo-nos diante dos jornais, a cada esquina, como com pastilhas elásticas e chocolates das máquinas automáticas. Se Jesus hoje voltasse, teríamos de crucificá-lo depressa em defesa própria, para justificarmos e preservarmos a civilização que desenvolvemos e sofremos e morremos, guinchando e praguejando de raiva e de impotência e de terror, em dois mil anos de a criarmos e aperfeiçoarmos à imagem do homem.; se Vénus voltasse, seria um homem sórdido, numa retrete de metropolitano, com a palma da mão cheia de postais obscenos... - McCord voltou-se na cadeira e fez um gesto violento e reprimido. O criado apareceu, McCord apontou para o seu copo. A mão do criado veio repor o copo cheio na mesa, e retirou-se.»

(Palmeiras Bravas, William Faulkner, trad. de Jorge de Sena)