
A propósito do post anterior, um leitor anónimo deixou este comentário ( só não publico os que considero ofensivos ou mal-educados...) :
"O problema dos rachados, meu caro ex-camarada, não é o de se afastarem do partido, mas o de se entregarem a outros, onde têm melhor pasto para a sua ambição e vaidade."
Acho muito elucidativo porque revela a mentalidade tipicamente intolerante e anti-democrática da maioria dos militantes comunistas. Intolerante porque, se aceita o meu afastamento do PCP, já não aceitará o facto de eu eventualmente me "entregar a outros". Isso fará de mim um "rachado", termo acintoso e, até, ofensivo.
Anti-democrático porque não admite o pluralismo partidário, porque considera que só o PCP tem a verdade e os outros são apenas veículos de ambição e vaidade.
O que daqui resulta é que o PCP se torna religião - muitos vivem a militância como tal -, com dogmas, hierarquia, catecismo, rituais, hinos, literatura beata e ex-comunhões. Um "rachado" é um ex-comungado. E tal como na Idade Média a vida de um ex-comungado se tornava num inferno - com proibições, enxovalhos e descriminações de toda a ordem até à destruição total - nos anos 20 e 30 os dissidentes comunistas da URSS eram eliminados depois de processos em tudo semelhantes aos medievais. Se hoje a Igreja já não faz o mesmo é porque entretanto houve uma longa luta dos povos pela libertação, que culminou na Revolução Francesa. Do lado comunista foi a implosão da URSS nos anos 80 que levou à secundarização dos PC's nas sociedades ocidentais e à impossibilidade de eliminar fisicamente os "infiéis". Mas, tanto de um lado como doutro, é ainda muito forte a mentalidade persecutória. Pudessem eles...
Fui educado numa família profundamente cristã/católica, frequentei o Seminário dos Olivais e afastei-me da prática religiosa porque me tornei agnóstico. Tendo crescido numa terra de fortes tradições de luta anti-fascista, foi natural a minha adesão ao PCP na idade adulta. Nele militei, tentando imitar a generosidade de quase todos quantos conheci naquele partido, gente convicta, abnegada. Mas acabei por sair em 1985, aquando da candidatura de Maria de Lurdes Pintasilgo à Presidência da República, que o PCP hostilizou. Comecei a sentir-me mal com a incapacidade do PCP para lidar com os outros partidos que: ou são de direita ou são de radicais que fazem o jogo da direita. Os partidos aceitáveis são os que se assumem como satélites do PCP. Caso dos Verdes a cujo nascimento assisti e que foi "cozinhado" dentro do PCP...
Provavelmente já alguém fez um estudo comparativo entre o extremismo católico e o seu congénere comunista. Gostava de o ler. Para confrontar com a minha experiência de vida.
Guardo para outro dia mais alguns dizeres sobre estas questões.Nomeadamente sobre a contradição entre a bondade individual da grande maioria dos militantes católicos e comunistas e o poder sinistro das organizações a que pertencem.
Por hoje deixo apenas uma frase que retirei de um catecismo católico e que define o que é o pior pecado que o Homem pode cometer, o chamado "pecado contra o Espírito Santo":
"Negar a verdade conhecida como tal, quando o pecador de tal modo se entrega conscientemente à mentira a ponto de acabar acreditando na mentira como verdade, e, por isso, recusa até a evidência da verdade."
Nos processos estalinianos os condenados tinham exactamente este comportamento: negavam a verdade do Partido, entregavam-se à mentira de outras posições partidárias, acreditando nelas e negando a evidência de que só o Partido tinha posições políticas correctas. E antes que levassem outros a acreditar nas suas mentiras, eram condenados à morte e eliminados. Aos milhares. Em nome da verdade.
Era o que me aconteceria provavelmente, para castigar a minha ambição e a minha vaidade...
Isto digo eu... não sei...