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23.12.14

A PROPÓSITO DE UMA FOTO ANTIGA

Um dia fiz de barbeiro do séc. XIX...




E ao fim do dia
a matéria de que se faz a minha vida
de novo abandonada
de novo de novo abandonada
pergunta-me silenciosa
se ao apagar da luz
a vida terá princípio.

Pedro Támen, O Livro do Sapateiro
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2010




4.5.11

GOSTO DO PEDRO TÁMEN


Mas já houve tempo em que o detestei. Alguns títulos dos seus livros ("Horácio e Coriácio"....), o contorcionismo da escrita poética ( "...e não é dito assim / que assim se inspira / um outro canto ou este, / mas nem dizendo, até que fica / tal como aquela aberta, / a luz fechada / - mais íntima e transposta."), até o aspecto do homem...
Um dia - em 1991! - Pedro Támen veio a Torres Vedras participar num Poesia ao Jantar organizado pela Cooperativa de Comunicação e Cultura. Fui lá jantar, serviram-me poesia à sobremesa  e fiquei a gostar dele.
A "Tábua das Matérias" - compilação da sua obra poética de 1956 a 1991 - passou a fazer parte dos meus livros de cabeceira.
Tenho seguido o seu percurso poético e profissional, o labor de tradutor premiado. Soube da aposentação, li há semanas a bela entrevista à LER. Comprei o "O LIVRO DO SAPATEIRO" (Dom Quixote, Lx, 2010).
Nunca me senti defraudado, antes enriquecido com a maneira de ser deste homem simples, despretencioso mas sábio e experiente, com uma vida cultural rica e intensa.
Vi ontem num jornal que "O Livro do Sapateiro" foi distinguido com o prémio de Poesia da APE. Fiquei contente por ele e pela poesia, nosso território de verdade e essência.






Este livro tem 49 poemas. Leio o 48:

Ardem-me os olhos de tanto me fixar
no presente vivido. Choro
inundando o que nas mãos seguro.
E é com as lágrimas dos dias,
com este pranto reclinado,
que à obra puxo o lustro,
dou brilho à sua vida, à minha.

27.2.11

ESCRITA E SAPATOS

Pedro Támen sente a passagem dos anos, como pudemos ver na entrevista à LER. É a vida...
Mas os poetas têm arte de dizer o que é experiência de toda a gente. E PT escreveu O LIVRO DO SAPATEIRO.
É assim que ele se vê: um solitário à banca de trabalho, manejando linhas e sovelas, colas e tesouras, solas e borrachas, pregos de tomba e vira. Sapateiro. À moda antiga, como os conheci, sentados no banquinho, mãos hábeis onde os outros põem os pés. "Ó mestre, quando é que me entrega o arranjo das meias-solas?"

Artesanato puro, sapateiro ou poeta. Os dias passam, como os transeuntes na calçada,  e o artesão à banca em seu ofício. O júri do Correntes d'Escrita 2011 gostou da extensa metáfora em 49 poemas e deu-lhe o Prémio.

Pequeno livrinho da D. QUIXOTE que abro ao acaso:

E no entanto chega luz,
uma estranha, inesperada luz,
à catacumba onde estou vivo
por força destas mãos.
Da matéria que afago à minha frente
irrompe ou brota uma solar,
uma ardente e sereníssima claridade,
de que me valho ao ver o universo,
vendo e vivendo os dias que passaram
e os que em nascer persistem.

3.2.11

GOSTO DE LER



Ler a LER já se me tornou uma rotina mensal.
É uma revista que se dedica aos livros e aos autores com uma qualidade de apresentação grafica acima da média e com riqueza e variedade de conteúdos que a tornam irresistível. Vale bem os 5 €.
Pedro Támen é o convidado do mês, à conversa com o sempre bem informado Carlos Vaz Marques. Com ele entramos na casa do poeta - também conhecido como um dos nossos grandes tradutores - partilhando os dias e as rotinas, sem bisbilhotice, conversa centrada no ofício de escre(vi)ver.
Gosto do Pedro Támen, aprendi a gostar, depois de alguns anos de rodeios em torno da sua poesia que me repelia, na sua sintaxe arrevesada. Até que percebi que aquilo era uma forma diferente e original de desvendar os segredos das palavras. Porque não há palavras simples e a poesia de Pedro Támen parte dessa evidência. Joga, esconde, procura, nega, interroga. Cada palavra, cada frase.

Outra coisa que admiro nele é a recusa da pose. Não se leva a sério, como afirma. E não tem paciência par os literatos que teimam em dizer que o são. Retenho da entrevista:

«Nunca procurei as chamadas "luzes da ribalta", nem entrevistas como esta. Além disso, sempre tive a sensação de que 10 depois da minha morte ninguém saberá quem fui»

(...) na poesia que ia escrevendo contribuía para que as pessoas dissessem: "Este tipo afinal é poeta mas não parece nada poeta, é um tipo normal."

Entrevistador: Parte-se portanto do princípio de que os poetas não são tipos normais.

Exactamente.

E não são?

Os poetas, no seu reduto próprio de poetas, não são ti¬pos normais. Em princípio, o poeta é aquele que vê um bocadinho mais do que os outros. Ou que pelo menos é capaz de e^rirnir coisas que vê e que os outros, mes¬mo quando vêem, não são capazes de formular. Estou a falar tanto dos poetas como dos artistas em geral: músicos, pintores, etc. A poesia é, para mim, um per¬manente arranhar o mundo, com unhas na cal, para tentar encontrar coisas que se pressentem por detrás do branco uniforme do mundo e da vida.

É uma procura de sentido?

Sim. Ainda por cima com a fatalidade inelutável de isso ser inglório, de afinal nunca revelar absolutamen¬te nada. No fundo, nunca chega a verdade nenhuma. »


Vou ler o resto da entrevista e da revista. 96 páginas de muita coisa interessante, das crónicas às recensões, das notícias às curiosidades.