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23.8.10


LITORAL OESTE - S. LOURENÇO


CANÇÃO SEXTA

Nós sabemos do mar a cor violenta
e o sal dentro das veias a latir.
O dia é uma ave lenta,
lenta voando sobre o Tejo. Até cair.

E nas mãos guardamos essa ave
que nos tinge de sangue o litoral.
A cor dos nossos olhos só a sabem
os que nascem aqui. Em Portugal.

Os que lutam às portas de Lisboa
respirando nas ondas e no tempo
este azul tão selvagem que magoa
as gaivotas prenhes pelo vento.

Os que tombam às portas da cidade
sobre um lençol de feridas e de fogo.
Sem nome. Sem culpa. Sem idade.
Que assim morrem os homens deste povo.

Joaquim Pessoa

.......................................................

Revisitar este mar ao som da poesia de Joaquim Pessoa.
Preparar os trabalhos de Setembro. Definir objectivos, planificar tarefas, arrumar papéis que o Verão deixou em tumulto.
Dos dias que passaram ficam imagens fortes: Santa Cruz, o sol, o vento desabrido, as caminhadas no litoral, mãos dadas e gaivotas nos olhos. Os risos desatados dos nossos meninos, as vindas a Torres a garantirem presença necessária, o regresso ao ninho dos livros e da ternura quotidiana, a visita vibrante e calorosa de dois amigos do Sul.

A consciência de que nos é dada uma parcela afortunada da vida, ao mesmo tempo que milhões de seres sucumbem a desastres pavorosos.

2.8.08

Imagens do meu olhar... Rio Maior

S. João da Ribeira ( Conc. de Rio Maior ): terra natal do poeta Ruy Belo.



Nasceu nesta casa:



Daqui voou para o mundo através da sua obra poética
Aqui voltou, em 8 de Agosto de 1978, e repousa para sempre...



(...)

Vejo no céu qualquer coisa de meu

o dia acaba alguém se lembra de morrer

parece um pouco que não há nada a fazer

não me perguntem em que empreguei o tempo

creio que a bem dizer não fiz mais do que olhar

e há tão pouca gente que saiba olhar

(...)

Ruy Belo, A Margem da Alegria

Fotos (C) Méon

14.7.08

Pão de palavras


A pão sabem as palavras,
quando a brisa do sul nos roça a cara.
Seguro, nas duas mãos, as tuas mãos
e sob o peito (o teu, o meu), alastram ramos
transparentes que sustêm, na casa,
a trave-mestra, como se a raiz
de cada árvore nos amarrasse
as veias ao destino do coração.

Graça Pires
in: Cem Poemas Portugueses no Feminino
Ed. Terramar, Lx.,2005
Foto (C) Méon

8.10.07

***** MARGEM QUE NOS LIGA *****


DESENHOS
Estou diariamente à tua espera
Como quem espera um astro pela noite.
Defino-te em segredo.
Revejo-te na memória.
Desenho a tua fronte nas estrelas.
Invento-te.
Construo a tua boca sem palavras.
Construo este silêncio em que me prendo.
Passas diante de mim
- uma forma sem contornos
Te inicia.
Constróis-te
Como se foras brisa.
Dissolves-te
Como se dissolve a areia.
E na margem
Que nos liga
Nosso sonho principia.
João Rui de Sousa, «Fogo Repartido»

27.6.07

MISTÉRIO


ESCUTO

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber que estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

Sophia de Mello B. Andresen