
De tirar a respiração !
Ontem foi dia de alongar os olhos. A máquina fixou esta imagem, os olhos perderam-se lá longe, o coração bateu pela terra onde crsci. Lá está ela, do lado esquerdo, já perto da linha do horizonte... Alpiarça!
Como descrever tanta beleza? Lembrei-me de um texto do velho professor que gosta de mostrar Portugal:
As Portas do Sol são um daqueles lugares predestinados, irrepetíveis, que, vistos uma vez, não se esquecem mais. Mal sei encontrar as razões do encantamento: é a lonjura, a luminosidade, um imenso sentimento de paz que vem do predomínio das linhas horizontais. Mas não é só isso, e o que falta dizer é o essencial, mas é indizível. Há uns anos acompanhei amigos meus do Rio de Janeiro e levei-os até ao parapeito da muralha. A forma como exprimiram a emoção quase me surpreendeu: «Mentira! Não pode!» O que é que é mentira, o que é que não pode, quis eu saber. Um lugar não pode ser tão belo, era o que estavam a dizer. Lembrei-lhes as paisagens emocionantes do Rio visto do Corcovado ou da Urca: « É outra coisa. Lá a gente sente-se perdida, aqui é o mundo que fica dentro de nós.»
E é verdade. Nas Portas do Sol não cabem as palavras fortes: abismos, imensidões, vertigens, tudo isso fica errado aqui. Vêm antes ao espírito versos desgarrados de sonetos de Camões: alegres campos, verdes arvoredos, leda serenidade deleitosa, num jardim adornado de verdura…
[José Hermano Saraiva in: Itinerário Português – O TEMPO E A ALMA, Gradiva, Lisboa, 1987]
Foto (C) J. Moedas Duarte