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2.1.09

QUE IRRITAÇÃO

MENSAGEM! AOS PORTUGUESES!


Eu prometi! Eu fiz o possível! Mas não dá...
Não sou capaz de encolher os ombros, sorrir, assobiar o fon-fon-fon...
Não suporto as "mensagens de natal"! Seja de quem for, na televisão, aquele ar grave, o cenário pretencioso, o fatinho passadinho a ferro...
O primeiro-ministro! O presidente da república! O patriarca!
Dirigem-se a nós, "aos portugueses", como se todos fôssemos iguais. O Presidente amarrou aquele ar de pai severo a avisar os estouvados que ainda não perceberam que "o ano de 2009 vai ser muuuuito difícil".
Ouviram? VAI SER MUITO DIFÍCIL!!!
Para este tipo parece que todos nós somos igualmente responsáveis pela situação do país. Pelo facto de a dívida pública ter crescido explosivamente. Pela falta de competitividade. Pelo aumento desmedido do consumo. Pela escassez de consumo. Pela fortuna colossal do amorim, e do belmiro. Pelas trapaças dos bancos. Pela inflacção. Pela deflacção. Pelo aumento alucinado do petróleo. Pela baixa incrível do petróleo. Por andarmos a afastar-nos dos padrões europeus há mais de oito anos. Por termos desemprego brutal. Por termos ainda emprego...

Ó cavaco! ! Ó sócrates! Ó patriarca: vão pregar para outra freguesia! Nós não estamos onde vocês pensam: nem no comício nem na sé de lisboa.
Nós estamos sozinhos em casa, nas ruas, nos centros de saúde, nas urgências dos hospitais, nos lares de velhos, nos bancos de jardim, nos bairrros suburbanos, nas aldeias isoladas pelo frio.

Vocês é que tiraram os cursos, vocês é que ganham trinta vezes mais do que nós, vocês é que sabem tudo, vocês é que são arrogantes na assembeia da república, vocês é que deram dez anos de prosperidade cavaquista ao país, vocês é que entram no omnipotente vaticano,vocês é que sabem onde está a treta do "interesse nacional" e a vontade de deus...
Você, ó patriarca, é que fala todos os dias com Ele ...
Mas entram-me em casa e pregam sermões. Encostam-me à parede. Ameaçam-me. Aconselham-me. Batem-me umas palmadinhas nas costas.
No fim, sorrisinho de despedida, complacentes. Só falta proporem um brinde com o vinho do porto manhoso que me sobrou da festa. Para que eu, pobre diabo, não me vá abaixo enovelado em culpas e tenha ... paciência!


9.11.08

Mundos paralelos



Estive lá! Subi do Terreiro do Paço até ao Marquês! Vi!
No Telejornal da noite, na RTP, a Ministra: também a vi, a responder, convicta, às questões pertinentes do jornalista.
Tento despir-me de preconceitos e olhar para ela como alguém que está a tentar fazer o melhor que pode e sabe. Tento percebê-la, sei que é errado diabolizá-la, prescruto o que vai dentro da mente dela.




E uma evidência se impõe: entre ela e os mais de cem mil que estiveram na rua há uma parede intransponível. Não vivemos no mesmo mundo! A realidade que ela vê não é a mesma que nós vemos. Por isso este diálogo de surdos.
Ela fala em dois papéis que é necessário preencher - apenas dois papéis, senhor jornalista!
Os professores falam em horas de intermináveis reuniões, em resmas de papel.
Este é o grande, - O GRANDE problema ! - de quem nos governa: eles vivem fechados nos gabinetes, só falam com dossiês preparados por assessores carreiristas e quando descem ao povoado vêm blindados de cerimónias protocolares.
Eles não fazem a mínima ideia de como vivemos, do que fazemos, do que pensamos. E pensam que governam!




Quero acreditar nas boas intenções deles mas esbarro nesta verificação: pusemo-los lá em cima com o nosso voto e eles convenceram-se de que são imprescindíveis à marcha da História. E verifico mais: só alguns estão bem intencionados. A maioria entrincheirou-se nessa gaiola dourada do PODER ADMINISTRATIVO e tornou-se objectivamente cúmplice dos que têm o PODER REAL do dinheiro, o verdadeiro PODER POLÍTICO. E logo que podem passam de um para o outro.




O caso do BPN aí está, de fulgurante clareza. Os barões do Cavaquismo! O que eles diziam que eram e o que eles são! ("Pai, sou Ministro!" - gritava ao telefone o Dias Loureiro, que agora é Conselheiro de Estado e um dos grandes do BPN! ). O padrinho deles é, agora, o nosso Presidente! Calado que nem um rato, com medo que o soba da Madeira fale alto do muito que sabe...




Tudo me faz lembrar o "ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA": impressionante metáfora deste medonho mundo!
Com os olhos parados, brancos, ela falava, a Ministra. Era como se caminhasse às apalpadelas pelo corredor da sua imensa escuridão!