Mostrar mensagens com a etiqueta Raul Brandão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Raul Brandão. Mostrar todas as mensagens

25.8.10

QUE FAZER? OPTIMISMO?


 Excursão Filosófica - Edward Hopper.




Se a política é a tensão permanente entre interesses, só há duas formas de a fazer: com base em princípios éticos ou a partir da lei do mais forte.
O problema é que a Moral não existe fora do contexto humano, por mais que as religiões proclamem o contrário. E a lei do mais forte acaba por se impor a coberto de princípios morais.
Os "amanhãs que cantam" só existem na imaginação dos oprimidos. É o Paraíso que espera os que gemem e choram neste "vale de lágrimas". A fé de que  "o sol brilhará para todos nós" é a mesma dos que enchem a Cova da Iria. De uma e outra se ri o financeiro.
Em 1789 o furacão revolucionário varreu a França e cortou a cabeça ao rei absoluto. O povo acreditou. Mas, poucos anos depois, ergue-se um Imperador e o povo corre a morrer por ele nos campos da Europa.
Em 1917 o povo russo liberta-se dos Czares. Poucos anos depois entrega-se nas mãos de um ditador ainda mais sanguinário.
«A História é drama» -  Teixeira de Pascoaes; « A História é dor» - Raul Brandão.

Às dúvidas e interrogações, alguns chamam "desorientação ideológica", outros "divagações intelectualóides".
De tudo, o finaceiro continua a rir...

26.1.10

O AMOR EM PALAVRAS


Foto José D. R. Neca, in: OLHARES fotografias online, 24-12-2008


Gastas, tão gastas, as palavras. Quantas vezes só o silêncio exprime um sentimento que não (nos) cabe em palavras!
Tropeço no texto de Raul Brandão "O SILÊNCIO E O LUME", escrito em Dezembro de 1924, inserto no Vol II das suas "Memórias". As longas noites de Inverno, diante do lume, com Maria Angelina, a mulher amada.
Fico em silêncio. Ah!

«Cada vez me aproximo mais de ti. O que há de puro em mim a ti o devo. És limpidez e ternura.
Eu exagero sempre a dor, tu nunca te queixas. Andas nas pontas dos pés. Mal respiras — e estás sempre presente. Tens uma capacidade para a dor que eu não possuo.

Tudo em ti se faz naturalmente, tão naturalmente que nin¬guém dá por isso. A tua bondade não é um esforço. E é-te tão fácil partilhar a desgraça e as penas dos que se aproximam de ti!... Ninguém te vê e fazes-te sentir em toda a casa. Aquece--la. Estás em toda a parte, e ao mesmo tempo a meu lado. És como o ar que respiro.

Qual é a fonte escondida da tua vida, só o sei agora. Nunca pensas em ti — pensas sempre nos outros, ocupada num de¬ver a cumprir, não como dever, mas como instintiva com-preensão da Vida.

Já uma vez te propus matarmo-nos ambos, para penetrar¬mos mais depressa noutro mundo que adivinho esplêndido. Matarmo-nos não por horror à vida, mas por amor à vida. A outra vida maior. E não só por isso —: para ver a tua alma na sua completa nudez.»
(in: MEMÓRIAS, Tomo II)


"Maria Angelina e Raul Brandão", quadro de Columbano


«Nas caladas noites de Inverno, quando despego o olhar dos papéis, encontro sempre os teus olhos que me envolvem de ternura. Isto é quase nada — e revolve o mundo. E saudade, e a vida que passa e a morte que se aproxima, enquanto o tronco arde no lume, o pinheiro estala ou o carvalho amorroa. De fora vem o hálito da floresta e das águas. Mais silêncio... Surpreendo-te então a repetir o meu pensamento, ou é o teu que me acode ao mesmo tempo. Não fales! Outra figura trans¬parece atrás da tua figura. Nesse momento até o lume parece encantado e ficas tão linda que antevejo a vida misteriosa que me fascina e deslumbra. Isto só dura um segundo. Mas basta às vezes que sorrias e é a tua alma que sorri, basta às vezes que não fales e é a tua alma que me fala! Nesse momento somos um ser: eu sou tu, tu és eu; tu sorris, eu sorrio... Então cai sobre nós o silêncio — e eu descubro o que só nos é dado ver depois da morte, a amplidão das almas, seu poder magnético e, num deslumbramento, ao lado da existência pueril, a imensidade do universo e o infinito que nos rodeia e de que perdemos a sensação pelo hábito. A casa, que tem raízes de granito, voga no éter arrastada num turbilhão que me mete medo... Alguém nos vai bater à porta... Alguém se aproxima pouco e pouco num cerco que se aperta e em passos tão leves que mal se ouvem... Rodeia-nos o silêncio vivo, alma do mundo, o silêncio que é talvez o que eu mais amo na aldeia, este silêncio perfumado que envolve a nossa casa na solidão tremenda da noite: mais perto de mim arfa alguma coisa de religioso e profundo: — sinto a Vida e a Morte. Sinto-as enquanto a última brasa se apaga e as tuas mãos se agarram às minhas mãos de velho.»

(in: MEMÓRIAS, TOMO II)

17.1.10

A HISTÓRIA É DOR - Raul Brandão


Pollock



De volta de Raul Brandão ( 1867-1930) por causa do seu EL-REI JUNOT, dou-me conta da modernidade deste homem. Bebeu no pessimismo finissecular dos "nefelibatas" ( os que andam nas nuvens), mais por rebeldia juvenil do que por desistência existencial, e entrou no novo século sob "o estandarte de seda branca da Arte Moderna". Amanuense militar por imposição familiar, era nas Letras que terçava armas. Em 1910 saudou a República e reformou-se da tropa para escrever uma obra que chega até nós com  inesperada actualidade. Para mim, pelo menos.
A dor e o espanto de existir. A vida como farsa grotesca temperada de ternura se pensarmos nos pobres e abandonados. A inevitabiliade da morte, vivendo com ela ao lado mas iludindo-a com a partilha de um amor perene - a sua vivência com Maria Angelina perdura ainda nas páginas luminosas que lhe dedicou.
Quando se debruçou sobre a História, (EL-REI JUNOT e VIDA E MORTE DE GOMES FREIRE), respeitou as fontes onde buscou informação mas mergulhou nos subterrâneos da alma humana, em busca do significado mais fundo dos acontecimentos. Visão impressionista da História, habitada por seres empurrados para o abismo da morte, movendo-se como títeres manobrados por forças incomensuráveis.

EL-REI JUNOT começa assim:

«A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos. Eis a árvore: na árvore todo o trabalho obscuro se congrega para produzir a flor. Os homens debalde se agitam, desesperam, morrem; a Ideia leva-os, espicaçados pelo aguilhão da dor, para um destino natural de beleza. Não passam de títeres: pensam que resolvem, são impelidos, e essa mescla, que um momento se atropela em cena — gestos, bocas amargas, farrapos tolhidos de dor e impregnados de sonho, essa nuvem de espectros agitados, desfaz-se logo em pó: as órbitas das caveiras que alastram a crosta terráquea não se despegam porém, di-lo Emerson, das estrelas do céu. Fica uma ideia no ar — fica um rasto na terra: a dor transmite-se.

Todo o século XVIII resume-o na luta da Revolução contra fórmulas arcaicas. E isto é ainda uma aparência: mais fundo deparas sempre com a máscara impenetrável da dor.
O homem tem atrás de si uma infindável cadeia de mortos a impeli-lo, e todos os gritos que se soltaram no mundo desde tempos imemoriais se lhe repercutem na alma. — É essa a história: o que sofreste, o que sonhaste há milhares de anos, tacteou, veio, confundido no mistério, explodir nesta boca amarga, neste gesto de cólera... Não é inútil nem sofrer, nem fazer sofrer, e não há gri-to que se perca no mundo. Nem o mais ignorado, nem o mais humilde. Escusas de te rir... E todo o esforço humano é no fundo uma lenta aproximação de Deus, assim como tudo na vida se resolve segundo a forma por que cada um encara Deus... »