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2.11.10




Apetece uma flor uma janela
um candelabro um verso de Bilac
um cheiro de lilases uma estrela
uma fuga de Bach.

Apetece um licor um vinho velho
um chá da China cheio de perfume
apetece uma história de mistério
contada ao pé do lume.

Apetece uma tela em tons de roxo
um quadro de Giotto ou de Gauguin
uma carícia quente no pescoço
um bago de romã.

Apetece uma rima uma oração
apetece que chova faça vento
e haja um veneno um filtro uma poção
que embruxe na memória o coração
fugaz deste momento.

Rosa Lobato de Faria





2.2.10

QUANDO IL EST MORT, LE POÉTE...


Morreu hoje Rosa Lobato Faria. (1932 - 2010)
Escreveu poesia, romances, peças de teatro, letras de canções...
Foi atriz de teatro, cinema e televisão.

Autora de referência? Não ficará na História da Grande Literatura mas deixou obra que vale a pena conhecer. Porque se não foi inovadora nos temas e nas formas, soube manejar muito bem os instrumentos da escrita.


Recordo dois poemas de Rosa Lobato Faria, insertos na antologia CEM POEMAS PORTUGUESES NO FEMININO, ed. Terramar, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria:



Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.



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Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
e vais à cave içar o teu malão.

Mas como destrinçar os nossos bens?
Que livro? Que lembranças? Que papel?
Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens.
Não te devolvo - é minha! - a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho,
não sei se o queres levar, já está no fio.
E o teu casaco roto, aquele vermelho
que eu costumo vestir quando está frio?

E a planta que eu comprei e tu regavas?
E o sol que dá no quarto de manhã?
É meu o teu cachorro que eu tratava?
É teu o meu canteiro de hortelã?

A qual de nós pertence este destino?
Este beijo era meu? Ou já não era?
E o que faço das praias que não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?

De quem é esta briga? Não me lembro.