
"Porque o seu poder, descobriria mais tarde, era um poder sinistro e fatal. Uma vez, muito tempo depois, o meu marido disse-me que esse homem significava, na sua vida, «a testemunha». Esforçou-se nessa explicação. Dizia que cada homem tem, na sua vida, uma testemunha, uma pessoa mais forte que se lhe deparou na juventude, e que, por isso, todos procuramos esconder, aos olhos deste juiz implacável, o que haja de desonroso dentro de nós. A testemunha não confia em nós. Sabe de nós o que mais ninguém sabe. Tornemo-nos ministros, ou conquistemos o Prémio Nobel, a testemunha sorri, simplesmente. Tu acreditas nisso?..."
(in: A Mulher Certa, Sándor Marai)
Esta passagem impressionou-me. Ruy Belo em vários dos seus poemas fala no fenómeno que consiste em "sentirmo-nos olhados" por alguém. Por Deus? - como também se diz num poema de Sophia de MB Andresen. E neste caso o sentimento de culpa e de pecado viria daqui, como também viria o seu oposto: o conforto de sermos protegidos por alguém superior a nós.
Mas quem ama sente também que a lembrança do ser amado é como um intenso olhar que nos segue e anula a solidão.