A pouco mais de 10 Km de Vila Real, S. Leonardo de Galafura é um grito de paisagem deslumbrante. Uma ermida - S. Leonardo - ergue-se sobre a encosta íngreme do Douro, parecendo pairar sobre os socalcos de vinhedos em voo de águia. Suspende-se a respiração, enxugam-se as lágrimas de tanta beleza, quase insuportável. Percebemos finalmente o grande poema de Torga. Este é um dos lugares mágicos de Portugal
À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
E num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!
(Miguel Torga, Diário IX, 1964)
Alguém teve a ideia feliz de colocar o poema de Torga na parede da ermida de S. Leonardo, mesmo à beira do miradouro, o lugar certo para o ler em voz alta.