Editorial do DN, hoje:(...)
«Já a notícia de que, na última quadra natalícia, aumentou a venda de livros, e, em particular, de livros de autores portugueses, é, seguramente, uma boa surpresa. Porque é sempre muito difícil triunfar num mercado apertado pela falta de hábito arreigado de leitura entre os portugueses, o que produz edições de volume reduzido, aumentando, assim, os custos de cada exemplar de um tipo de bens caro, em termos relativos, para o poder de compra que temos.Quando olhamos com admiração para as tiragens de jornais e volumes das edições de livros nos países nórdicos, não esqueçamos que nos princípios do século XIX a Igreja Luterana impunha a literacia aos casais que quisessem ver o seu casamento formalmente celebrado, para estarem em condições de ler a Bíblia em família. Em Portugal já houve um tempo em que se acusava de heresia quem fosse apanhado com a Sagrada Escritura em casa. Mas os tempos mudam: o Plano Nacional de Leitura vai-se implantando nas escolas deste país. A sementeira dará os seus frutos. Tarde, mas dá.»
Diário de Notícias, 6 JAN2009
A causa principal do insucesso escolar dos nossos alunos - que ainda ontem o 1º Ministro atribuiu aos professores - é essa mesmo: em Portugal a maioria das famílias não tem livros em casa, ; e só agora se começa a ler mais.
Há poucos anos a Bíblia que se lia nas famílias católicas era uma edição depurada, reduzida a episódios escolhidos segundo as normas moralistas do Estado Novo.
Era vulgar ouvir dizer: "Letras são tretas".
Quando escolhi cursar História ouvi muitas vezes a exclamação: "Letras! Isso serve para alguma coisa?"
Não é por acaso que os países nórdicos são o que são. Lá, a Reforma Protestante abriu portas de literacia que só há poucas décadas Portugal começou a transpor.
[Entretanto, por cá, a Reforma Protestante continua a ser incompreendida e denegrida, como se a verdade histórica tivesse sido definitavamente esclarecida com o Concílio de Trento (1545-1563).]