
«O que fizeram as civilizações contra as moscas? Boa pergunta! Não fizeram nada. Milhares de inventos e aperfeiçoamentos nos diversos sistemas de matar a gente, isso sim. Quanto às moscas, estamos como no princípio: matamo-las como Eva matou a primeira que lhe ferrou nas suas bentas nalgas: às bofetadas.
Li, pouco há, o Dicionário da Conversação, requisitório de toda a ciência sobre tudo, inclusas as moscas. Que diz? Manda-nos fazer gabelas de fetos, pendurá-las, esperar que as moscas se empoleirem à noite, e apanhá-las num saco. Que progresso! Este sistema insecticida data da invenção dos fetos e dos sacos.
(...)
Por último, leitor, que sofre moscas, o que Vossa Excelência me pede, é remédio que as dizime e afugente? Ei-lo aí, extraido de Aldrovandi, no liv. 3º De Insectis: Pendura-se no tecto a cabeça ou a cauda dum lobo.
E mais nada.
A dificuldade é achar lobos: nestas terras onde eu vivo os lobos são comidos pelas moscas.»
Camilo Castelo Branco, Cavar em Ruínas