
Há pouco tocaram à porta. Abri. Uma jovem, carregada com pastas e papéis, disse ao que vinha: inquérito porta-a-porta, controlo de água...
O ar dela despertou-me a intuição de que merecia urgentemente uma palavra de estímulo. Porque de repente era eu quem ali estava, podia ser eu...
Convidei-a para entrar. Em poucos minutos fiquei a saber quem era: uma lutadora, uma jovem com vinte anos e três empregos em part-time, a provar que podia sobreviver pelo seu trabalho. O curso técnico-profissional de gestão e informática? Pode ser que venha a servir. Por enquanto vende produtos de cosmética, vende baguettes num centro comercial e faz porta-a-porta para uma empresa de publicidade.
Entrou porque - disse - achou que eu era boa pessoa.
Quero agradecer-te. Porque em poucas palavras mostraste como há jovens que saem da imagem preconceituosa que os mais velhos têm deles - pecado que eu também cometo... Fizeste-me voltar ao tempo em que, para ajudar a pagar os meus estudos... vendi cursos por correspondência e fotografias, porta-a-porta, em Lisboa e na Amadora, com uma pasta que pesava mais de cinco quilos - e ao fim do dia pesava vinte!
Lembraste-me os muitos jovens do meu país que querem trabalhar e não têm onde, enquanto muitos adultos esbanjam dinheiro em bens supérfluos.
És uma lutadora! A vida será tua porque não te rendes, acreditas em ti, tens coragem.
Obrigado, Marlene!
(Pintura de Elisabete Henriques )