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29.10.10

PORTAS... JANELAS...




Entrevista de Ricardo A. Pereira a A. Lobo Antunes, na VISÃO de ontem:

(...)
«Um grande artista devolve-nos uma imensa dignidade. Eu vejo sempre o concerto de ano novo, com música do Strauss, e comovo-me até às lágrimas. E uma tal vitória sobre a morte, a música do Strauss... É preciso acreditar nas pessoas. As pessoas são tão mais ricas do que elas mesmas pensam. Nós parecemos viúvas pobres: vivemos em duas assoalha­das com serventia de cozinha. E procura­mos a porta em paredes que sabemos que não têm porta, e temos medo de abrir as janelas. E, depois, há assim uns cabrões, como o Strauss, que fazem isto por nós.» (...)

A. Lobo Antunes foi buscar o título do seu último livro a um longo poema de Camões, meditação sobre o passado e o presente, o que está longe, o que já não volta... O tempo! Os lugares!

Camões, a quem devemos também "uma imensa dignidade"...


"Sôbolos rios que vão

por Babilónia, me achei,

Onde sentado chorei

as lembranças de Sião

e quanto nela passei.

Ali, o rio corrente

de meus olhos foi manado,

e, tudo bem comparado,

Babilónia ao mal presente,

Sião ao tempo passado."

(...)




7.11.09

A. LOBO ANTUNES

Paradoxo: gosto de o ler embora não tenha paciência para o ler.
Pelo menos, a mesma paciência com que ele escreve interminavelmente, 8 horas por dia, aqueles enormes romances que parecem fotogramas contínuos em slide show...

Mas as crónicas! (...que ele deprecia, em jeito meio snob. Escusado, né?)
Esta crónica, na revista Visão de 5ª f. passada!

Enorme! Sublime humanidade de um escritor!

(Clicar para aumentar)

7.5.09

SÓ CONSIGO ESCREVER "ATCHIMMMM"



(Sátira aos HOMENS quando estão com gripe)

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão-de-ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

António Lobo Antunes

28.9.07

António Lobo Antunes


"Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado" - título da entrevista a A. Lobo Antunes, na VISÃO desta semana.- passe a publicidade, à borla.
Vale a pena ler.
Passei - e passo ainda - por fases diversas no meu relacionamento com ALA.
Já o achei insuportavelmente arrogante. Depois percebi que aquilo é uma capa para a timidez e alguma falta de jeito social.
Achei - e às vezes ainda acho... - que ele escreve compulsivamente, como alguns loucos que não param de andar à volta de um canteiro. Aquilo parece sempre o mesmo livro.
Mas quando mergulhei nalguns livros dele, senti-me a nadar num pego, ou sozinho num barquito no alto mar...horizontes infinitos.
E há as crónicas! Absolutamente inultrapassáveis no humanismo, no desamparo de ser-se "apenas" homem.
ALA teve um cancro. Fez operação e ficou curado, aparentemente. Mas nada daquela conversa parva do "venci o cancro!!!" Porque sabe que sofre de um mal incurável: estar vivo.
Um dia destes abalanço-me a outro "tijolo" dele, talvez o que está para sair: O Meu Nome É Legião".