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24.2.13

O POEMA / ANTES DE ESCRITO



H. Matisse - Acanthes, 1953


FICA O NÃO DITO POR DITO


o poema

antes de escrito

não é em mim

mais que um aflito

silêncio

ante a página em branco


ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta (ou cabrito)
não berra

o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer

e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?
mas
como dizê-lo
se a fala não tem cheiro?

por isso é que
dizê-lo
é não dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo

do andar
do galo
no quintal
e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
(e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse –
diria)

mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
(o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele o sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite

Ferreira Gullar

14.6.10

BUMBA MEU-BOI

Nas andanças internéticas acontece-me o mesmo que quando me meto por becos e vielas das cidades antigas: vou dar a lugares inesperados, revelações únicas que marcam a viagem.
Andava eu pela biografia do grande Ferreira Gullar e fui parar às festas juninas de S. Luís do Maranhão, terra natal do grande escritor.
A designação da festa é bem brasileira, exemplo do inesgotável manancial linguístico que dali jorra: "BUMBA MEU-BOI".
A origem do auto do bumba-meu-boi remonta ao Ciclo do Gado, no século XVIII, resultante das relações desiguais que existem entre os escravos e os senhores nas Casas Grandes e Senzalas, refletindo as condições sociais vividas pelos negros e índios. Contado e recontado através dos tempos, na tradição oral nordestina, e depois espalhada pelo Brasil, a lenda adquire contornos de sátira, comédia, tragédia e drama, conforme o lugar em que se inscreve, mas sempre levando em consideração a estória de um homem e um boi...

O que isto seja, só vendo. Deixo AQUI o rasto. E a vontade de lá ir um dia...
E agora vamos ouvir! BUMBA MEU-BOI!!!!

12.6.10

ÓCULOS DE PAI


Um poema de Ferreira Gullar
em memória de meu pai, que teve uns óculos assim...



Meu pai


meu pai foi

ao Rio se tratar de

um câncer (que

o mataria) mas

perdeu os óculos

na viagem



quando lhe levei

os óculos novos

comprados na Ótica

Fluminense ele

examinou o estojo com

o nome da loja dobrou

a nota de compra guardou-a

no bolso e falou:

quero ver

agora qual é o

sacana que vai dizer

que eu nunca estive

no Rio de Janeiro


De Muitas Vozes (1999)

1.6.10

PRÉMIO CAMÕES 2010: Ferreira Gullar! - poeta brasileiro


Prémio literário é coisa boa, pelo menos para mim: desperta minha ignorância e diz "olha aqui, você desconhece". Isso mesmo. Imito escrita à brasuca" e declaro já: Ferreira Gullar éra-me completamente desconhecido até ver a notícia AQUI!

Assim se vê como sou um dos muitos que se deixam embalar pelas conversas da treta ( agora é o Mourinho...)e perdem o essencial.
Busco, meio envergonhado. Quem é este tipo?
E logo encontro. Manancial literário, talento desmedido, um grande continente a explorar!
Cá vou eu! Posso começar pelo próprio site do escritor, AQUI.

Como posso ir à biografia escrita por Glauber da Rocha, AQUI: Deixo o começo...

«Ferreira Gullar nasceu no dia 10 de Setembro de 1930, no Maranhão. Filho de Alzira Ribeiro Goulart e de Newton Ferreira, figura esta constante em seus poemas. Começou a fazer poesias aos 13 anos de idade, e aos 15 decide seguir a carreira de poeta e escritor, publicando neste mesmo ano o seu primeiro poema: “O trabalho”. Aos dezenove, publica seu primeiro livro: “Um pouco acima do chão”, o qual ele vem a renegar tempos depois.


Ferreira Gullar teve vários empregos. Trabalhou como locutor na “Rádio Timbira” onde foi demitido ao recusar ler uma nota oficial que apontava os comunistas como os responsáveis pela morte de um operário num comício, morto por policiais – na ocasião, Ferreira Gullar estava presente, presenciando o assassinato. Neste mesmo ano, participa do concurso de poesias do “Jornal de Letras”, que teve Manoel Bandeira como um dos jurados. A sua poesia “O galo” sai vencedora.» ...


E depois vou à poesia ( publicada em Portugal pela extinta editora "Quasi")


NÃO HÁ VAGAS



O preço do feijão

não cabe no poema. O preço

do arroz

não cabe no poema.

Não cabem no poema o gás

a luz o telefone

a sonegação

do leite

da carne

do açúcar

do pão


O funcionário público

não cabe no poema

com seu salário de fome

sua vida fechada

em arquivos.

Como não cabe no poema

o operário

que esmerila seu dia de aço

e carvão

nas oficinas escuras


- porque o poema, senhores,

está fechado:

"não há vagas"



Só cabe no poema

o homem sem estômago

a mulher de nuvens

a fruta sem preço


O poema, senhores,

não fede

nem cheira

Ferreira Gullar