28.5.10

A COISA MAIS ÓBVIA - OS TELEMÓVEIS


Deambulando pel' O FANTASMA SAI DE CENA, do P. Roth, rio-me com esta página.
Pensei-a quando começou a fúria dos telemóveis mas nunca seria capaz de escrevê-la como só ele sabe. Tão perto e tão longe da experiência de cada um.

«Que me surpreendeu mais nos meus primeiros dias de deam­bulação pela cidade? A coisa mais óbvia - os telemóveis. Lá no alto da minha montanha ainda não tínhamos cobertura de rede,  cá em baixo em Athena, onde a têm, raramente via pessoas a andar na rua falando despreocupadamente para dentro dos seus telefones. Lembrei-me de uma Nova Iorque em que as únicas pessoas que subiam a Broadway parecendo que iam a falar sozinhas eram malucas. Que tinha acontecido nestes dez anos para que de repente houvesse tanto para dizer - tanto e tão urgente que não pudesse esperar para ser dito? Para onde quer que eu fosse, havia sempre alguém que caminhava na minha direcção a falar ao telefone e alguém atrás de mim a falar ao tele­fone. Dentro dos carros, os condutores iam ao telefone. Quando me metia num táxi, o taxista ia ao telefone. Para quem muitas vezes passava dias seguidos sem falar com ninguém, não podia deixar de me perguntar o que seria que antes refreava as pessoas e agora tinha desaparecido a ponto de as levar a falar constante­mente para dentro de um telefone em vez de passearem sem terem ninguém a vigiá-las, momentaneamente solitárias, assi­milando as ruas através dos seus sentidos animais e pensando as miríades de pensamentos que as actividades de uma cidade inspiram. Para mim, aquilo fazia as ruas parecerem cómicas e as pessoas ridículas. E no entanto também me parecia uma verda­deira tragédia. Erradicar a experiência da separação não pode deixar de ter um efeito dramático. Quais serão as consequên­cias? Sabemos que podemos contactar a outra pessoa em qual­quer altura, e se não pudermos ficamos impacientes - impa­cientes e furiosos como pequenos deuses estúpidos. Percebi que o silêncio de fundo tinha sido abolido há muito dos restau­rantes, elevadores e estádios, mas que a imensa solidão dos seres humanos tivesse de produzir neles esta ilimitada necessidade de se fazerem ouvir, e a concomitante indiferença ao facto de serem ouvidos por quem quer que fosse - bem, eu, que tinha passado grande parte da minha vida na era da cabina telefónica, com sólidas portas de dobrar que permitiam fechá-la bem fechada, fiquei impressionado com toda esta falta de privaci­dade e ocorreu-me a ideia para uma história em que Manhattan se transforma numa sinistra colectividade em que todos espiam todos os outros, todos são controlados pela pessoa que está na outra ponta da linha do seu telefone, ainda que, ligando inces­santemente uns aos outros de qualquer ponto do grande espaço aberto, os telefonadores acreditem estar a usufruir da máxima liberdade. Sabia que pelo simples facto de inventar tal cenário estava em sintonia com todos os excêntricos que imaginaram, desde os primórdios da industrialização, que a máquina era inimiga da vida. Mas não podia fazer outra coisa: não percebia como alguém podia acreditar que continuava a viver uma exis­tência humana andando por todo o lado a falar para dentro de um telefone durante metade da sua vida vígil. Não, aquelas engenhocas não prometiam nada de bom para a promoção da reflexão entre o público em geral.»

O Fantasma sai de Cena, Philipe Roth, Dom Quixote, 2008

27.5.10

João L. Costa, "O velho, o rapaz e o burro"




UM VELHO

No meio do café barulhento, debruçado
sobre a mesa, um velho está sentado;
com um jornal à sua frente, sem companhia

E no desdém de sua velhice mísera de agora
pensa quão pouco aproveitou os anos de outrora
em que tinha fluência, e beleza, e energia.


Percebe que envelheceu muito; sente, conhece.
E contudo o tempo em que era jovem lhe parece
ontem. Como o tempo passa, como o tempo passa!


E pensa em como a Prudência o enganou;
e como - que loucura! - sempre lhe acreditou
quando dizia; "Amanhã. Há tempo." - Que trapaça!


Lembra ímpetos que segurou; felicidade,
quanta sacrificou. Cada oportunidade
perdida de seu saber insensato graceja.


Mas de tanto refletir e recordar
o velho tonteou. E agora dorme a sonhar
no café recostado sobre a mesa.
     
Konstantinus Kavafis
(1897)







25.5.10

A minha Casinha

PROPOSTA PARA VENCER A CRISE:

1. Que os portugueses ponham faixas nas janelas com esta frase:

                                   "Quase sempre o lar dos pobres
                                     tem mais alegria"

2. Que os telejornais abram com esta canção:
Minha Casinha (versão original) - 1943

Que saudades eu já tinha
da minha alegre casinha
tão modesta como eu.
Como é bom, meu Deus, morar
assim num primeiro andar
a contar vindo do céu.

O meu quarto lembra um ninho
e o seu tecto é tão baixinho
que eu, ao ir para me deitar,
abro a porta em tom discreto,
digo sempre: «Senhor tecto,
por favor deixe-me entrar.»

Tudo podem ter os nobres
ou os ricos de algum dia,
mas quase sempre o lar dos pobres
tem mais alegria.

De manhã salto da cama
e ao som dos pregões de Alfama
trato de me levantar,
porque o sol, meu namorado,
rompe as frestas no telhado
e a sorrir vem-me acordar.

Corro então toda ladina
na casa pequenina,
bem dizendo, eu sou cristão,
“deitar cedo e cedo erguer
dá saude e faz crescer”
diz o povo e tem razão.

Tudo podem ter os nobres
ou os ricos de algum dia,
mas quase sempre o lar dos pobres
tem mais alegria.
Autores: Silva Tavares e António Melo

24.5.10

RECORDAÇÕES DE ALPIARÇA I

Foto Alpiarça Flirckr


Como é bom voltar contigo aos lugares de outro tempo... Recordar o que escrevi numa visita solitária:

«Estou no adro da Igreja. O sino toca as seis da tarde. As árvores projectam sombras e algumas andorinhas voam rasantes na faina dos últimos insectos. Parece-me ouvir os baloiços a chiar nos ganchos. Impressão minha. Aquele além, quem é? O Joaquim Gargalo? O Malacho? E o outro com um guiador de arame, a imitar os das bicicletas de corrida, não é o António Cândido, que morava no pátio do outro lado do muro do adro? Ninguém me responde.
Fico parado, frente ao cruzeiro de pedra. O que oiço, são ruídos do passado ou vozes do presente? Aqueles vultos, rapazes descalços e de fundilhos sobre o cotim, que vêm de tão longe para me encherem os olhos de água, onde param agora, tantos anos passados sobre as tardes de verão, quando tudo era possível porque ainda nada ou tão pouco tinha acontecido?

    Entro no templo. Um silêncio alto, uma penumbra fresca, as imagens nos altares, impávidas como foto­grafias. Vem da infância este cheiro a cera de velas, o arrastar de pés de uma velhinha que entra atrás de mim, as contas do terço a baloiçarem contra as costas dos bancos.
Arrepia-me o ar frio da nave. Mas lá adiante, sobre o altar-mor, uma figura apaziguadora saúda-me, de mão levantada. Talvez me tenha reconhecido. Aquele Cristo de madeira foi visto por tantas gerações que eu, comovi­do de novo, já não me sinto só. O frio de tantas recordações transfigura-se numa luz cheia de doçura.

Caminho lentamente pelo meio da Igreja. Do coro alto vem o eco do órgão, tocado por dona Maria de Lurdes Casqueiro... E vozes femininas em cânticos de júbilo: dona Casimira, as irmãs Matos Alves, dona Micas... Quando chego por baixo do grande arco fico parado, de olhos fechados. Muito tempo. De olhos fechados, para ver um Homem que por ali andou durante trinta e quatro anos da sua vida.»
             
 in: Voz de Alpiarça, Agosto 2003, em memória de meu pai que, entre 1946 e 1980, foi sacristão, cobrador de quotas, ajudante de contabilidade, administrador do "Voz de Alpiarça"

23.5.10

IMAGENS DO MEU OLHAR - ALPIARÇA




Casa que foi de José Relvas
 Museu dos Patudos.
Em obras no exterior mas visitável.
O encanto de sempre!




Barragem dos Patudos



Percebe-se o nome da barragem...











 Em Alpiarça sempre houve "casas grandes" e "casas pequenas", imagem de uma estratificação social profunda que deixou marcas que influenciam ainda hoje o presente daquela vila...

21.5.10

QUANDO MORRE UM AMIGO...

Ontem, nós e ele,  estávamos entusiasmados a preparar o próximo projecto da ADDPCTV.
Hoje ligamos para casa e recebemos a notícia: ele já cá não está! E não volta mais! Nunca mais!

Custa tanto dizer NUNCA MAIS!
Adeus, Zé Almendro!

20.5.10

GASTAMOS TODOS ACIMA DAS NOSSAS POSSES!??





Foi ontem divulgado um estudo que mostra que Portugal é o 10 º país do mundo do futebol relativamente ao número de espectadores nos estádios. Outro dado: a esmagadora maioria desses espectadores concentra-se nos jogos do Benfica, Porto e Sporting.
Ouvi isto na rádio, não pude anotar os dados certos. Mas sei que se tratava de um estudo feito a nível universitário.
Isto vem ao encontro do que venho sentindo há muito tempo: o futebol é um dos cancros económicos do nosso país e nenhum político tem coragem para o denunciar. Sendo certo que o futebol cria muitos postos de trabalho - de que os jogadores são a ínfima parte - há uma enorme desequilíbrio entre as receitas e as depesas que não pode deixar de se reflectir na nossa balança de pagamentos. Veja-se o caso da equipa campeã deste ano. Praticamente só três ou quatro jogadores de topo são portugueses.  (Por isso nunca uma equipa campeã teve tão poucos jogadores seus na selecção nacional: só um!) Isto significa uma sangria mensal de milhares de euros que vão directamente dos bolsos dos assistentes aos jogos para as contas bancárias dos jogadores internacionais, mais os seus empresários e mais os clubes que ainda detêm parte dos direitos de uso dos jogadores ( o chamado "passe").
Com as outras equipas passa-se o mesmo. O Sporting, como se encolheu nestes gastos, teve a consequência de ter ficado para trás.

Quando se diz que "os portugueses gastam acima das suas posses", de que se está a falar? Daqueles (muitos!) que mal têm para comer? Dos reformados de 300 €? Dos desempregados sem subsídios?
Porque é que os políticos não dizem a verdade, apontando tantos exemplos de esbanjamento?

Se "estamos" assim tão pobres, então não se peça ao pobre que em vez de gastar dez euros no supermercado gaste apenas oito.
Corte-se onde os gastos são luxuosos. Por exemplo:

- a importação de carros de topo de gama, que passam por mim todos os dias...
- as contratações milionárias no desporto ( e não só no futebol), para fazermos figura...
- a importação diária de milhares de toneladas de alimentos não essenciais e que "tapam" os que existem em Portugal (ou deviam ser incentivados!): ontem no supermercado vi melões do Panamá, bananas do Equador, uvas da África do Sul, laranjas de Espanha...
- a construção de mansões de luxo, com equipamentos caríssimos, todos importados, (que vejo nas páginas das revistas da moda quando estou na fila da caixa registadora...)
- o comércio de telemóveis, onde campeia o mais desbragado consumismo, incentivado nas camadas mais jovens. Aos fins de semana as lojas dessa tralha estão sempre cheias...
- a construção de equipamentos sociais caríssimos, ( creches, juntas de freguesia, centros culturais, auditórios...) em detrimento de tipologias mais baratas...
- Os ganhos dos gestores de topo, que para além dos milhares de euros em vencimentos e prémios, têm todo um conjunto de mordomias de que nem sonhamos o montante...
- as reformas acumuladas por muitos, a começar no Presidente da República...
Etc... Etc...

Irrita-me cada vez mais a conversa do "gastamos acima das nossas posses", ( como ontem o Presidente da Caixa Geral de Depósitos, mais um a ganhar escandalosamente mas muito lesto em exigir poupanças aos outros...), sem que se definam em concreto esses gastos.
Mas essa gente pensa que nós somos tótós?

19.5.10

SAUDADES




The Waiting Morteza Katouzian (1982)



Saudades de tudo!

Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede de volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo..."

Guimarães Rosa

18.5.10

A GRANDE LITERATURA: Don deLillo, por exemplo...


Sou mau leitor de ficção. Não é que não goste de ler, simplesmente sou muito lento, mastigo as páginas e um livro de trezentas demora-me eternidades Como gosto mais de ensaios (História, Literatura, Política...) e alguma poesia, fico com a sensação de que os romances me tiram um tempo precioso – vai-se a ver gasto-o depois  parvamente na net, por exemplo...
O "Bibliotecário de Babel" fala-me de um dos melhores romances da actualidade: SUBMUNDO, de Dom deLillo, autor norte-americano que classifica de "genial".
Pode ser que me abalance...
Mais uma dica para a minha amiga F.S. que não perde um grande autor norte-americano!


 Na página da Wook encontro:

«Don DeLillo

Don DeLillo nasceu em 1936, em Nova Iorque. É autor de catorze romances e três peças de teatro. Foi galardoado com o National Book Award, o PEN/Faulkner Award e o Jerusalem Prize. Em 2006, Underworld foi considerado um dos três melhores romances dos últimos vinte e cinco anos pela New York Times Book Review e recebeu em 2000 a Medalha Howells da American Academy of Arts and Letters pela mais eminente obra de ficção dos últimos cinco anos. A Sextante Editora publicará em breve outras obras do autor, entre elas Ruído branco e Underworld. »

«Sinopse
Submundo é a crónica de vidas ordinárias inseridas no último meio século da história americana. No imenso palco do romance, elas cruzam-se com figuras que marcaram a época - J. Edgar Hoover, Frank Sinatra, entre outras. DeLillo faz surgir uma obra de arte deslumbrante do outro lado, obscuro e escondido, da humanidade contemporânea.
Submundo é um livro magnífico de um mestre americano. Salman Rushdie
Este livro é uma ária e um uivo de lobo do nosso meio século. Contém multidões. Michael Ondaatje
Um forte candidato a livro do ano. José Mário Silva »

16.5.10

ALDRABAS...ALDRABÕES...ALDRABICES...


Veja-se AQUI como a política de direita em Portugal é, cada vez mais, uma aldrabice sem limites.
E preparam-se estes "aldra" para organizar o golpe de mão definitivo: aumento do IVA ( mesmo em bens essenciais), cortes nos salários, nas pensões e nas prestações sociais.

Sócrates e Coelho, mais os grandes economistas que, com tantos cursos em "universidades lá fora" foram incapazes de prever a crise!...

ESTÉTICA DO ENFADAMENTO DIVERTIDO






De volta da Arte Contemporânea. Grande esforço. 
Conclusão provisória:  ou enfado ou divertimento.
Por acaso abri o LDD do Pessoa nesta página:

ESTÉTICA DO DESALENTO

«Já que não podemos extrair beleza da vida, busquemos ao menos extrair beleza de não poder extrair beleza da vida. Façamos da nossa falência uma vitória, uma coisa positiva e erguida, com colunas, majestade e aquiescência espiritual.
Se a vida [não] nos deu mais do que uma cela de reclusão, façamos por ornamentá-la, ainda que mais não seja, com as sombras de nossos sonhos, desenhos a cores mistas esculpindo o nosso esquecimento sobre a parada exterioridade dos muros.
Como todo o sonhador, senti sempre que o meu mister era criar. Como nunca soube fazer um esforço ou activar uma intenção, criar colidiu-me sempre com sonhar, querer ou desejar, e fazer gestos com sonhar os gestos que desejaria poder fazer.»

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa; ed. Richard Zenith


Tropecei no blogue do Ricardo Costa :

«SOBRE O MÉTODO DA COMPOSIÇÃO EM TEMPO REAL


enquadramento histórico, artístico e político

o método de "composição em tempo real" tem sido desenvolvido e sistematizado por João Fiadeiro desde 1995. num primeiro tempo teve como enquadramento a necessidade de se criar um sistema de composição que pudesse ser partilhado pelos seus colaboradores no processo criativo. num segundo tempo afirmou-se enquanto instrumento para explorar modalidades de escrita dramatúrgica na área da dança, tendo sido estudado, desenvolvido e utilizado por diversos artistas e investigadores. desde 2005 tem vido a afirmar-se no território da investigação, debruçando-se nomeadamente sobre o problema da “decisão” e da “representação”, alargando assim a sua esfera de interesse e de aplicabilidade para fora das fronteiras da dança e mesmo da arte. é um método fortemente influenciado pelos avanços que se têm verificado nos últimos anos em disciplinas científicas como a neurobiologia, a ciência económica, a ciência da computação, a filosofia da linguagem e da mente, a física quântica, a linguística cognitiva, etc. “composição em tempo real” é uma designação que nasce por oposição à ideia vinculada por algumas práticas de improvisação que promovem as noções de “instantâneo” e “espontâneo” como sinónimos de “liberdade” e “autenticidade”. o método de "composição em tempo real" defende que “agir livremente”, mesmo sob a pressão do “tempo real” (ou sobretudo por causa disso), pressupõe uma leitura “distanciada” do contexto em que se é interpelado a agir, bem como o controle das condições de visibilidade desse movimento. numa palavra, pressupõe que sejamos responsáveis pelas nossas acções. só assim, a nosso ver, se estará perante um gesto verdadeiramente livre. Este tipo de discernimento e “sangue-frio” perante as nossas próprias emoções e convicções, sobretudo quando confrontados com a velocidade associada ao tempo real, obriga a um treino que passa pela mecanização de um “modo de operação” que, no limite, tem como finalidade “ganhar tempo” para que o instrumento mais importante no processo de decisão – a intuição – possa emergir.»

Percorri a famosa exposição nos Paços do Concelho cá da Parvónia e li no respectivo catálogo ("Antena 4"):

«Mas ressaltar a imbricação do material com o semiótico não é sintomático de um retorno ao objecto artístico com a sua aura de originalidade. O objecto-obra e a possibilidade da reprodutibi­lidade técnica não se encontram em oposição, pois não se trata de opor o Uno ao múltiplo, mas de reconhecer a singularidade da série (expres­são). É a reprodutibilidade em si mesma que deve ser apropriada pelo mecanismo da própria obra, assim como é na própria obra que devem ser fabricados os termos da sua serialização. Vejam--se os exemplos de zines como a mítica Search & Destroy,12 criando séries em papel colorido com o simples recurso a uma fotocopiadora, ou os múl­tiplos de George Maciunas - Fluxkits -, arquivos/ /edição em caixa de vários objectos produzidos por elementos do movimento Fluxus.
A peça de edição deve encontrar a sua expres­são no material, e através desta capacidade de "vibração objectual", transversal aos vários cam­pos atravessados, catalisar o arquivo para além da sua faceta de registo passivo e em direcção a uma produção activa.»

Quando consigo parar de rir começo a bocejar. E quando paro de bocejar, dá-me vontade de rir.
Se calhar descobri um novo conceito: "Estética do enfadamento divertido".

14.5.10

EU E A RELIGIÃO

Aos que me perguntam porque é que me intrometo nas questões religiosas, respondo simplesmente: porque elas se intrometeram comigo desde que nasci!

Tal como muita gente da minha geração, o meu crescimento foi profundamente marcado por uma educação religiosa repressiva e obsessiva, em que a noção de pecado e de um Deus castigador que exigia penitência  envenenaram os melhores dias da minha infância.

Mas o drama maior foi a identificação do amor pelos meus pais com a prática religiosa, de tal modo que, quando me afastei desta, provoquei neles um sofrimento que me foi insuportável durante muito tempo. De facto, nunca encontrei na religião motivos de alegria e consolação, antes de temor e revolta.
O meu espírito infantil foi profundamente impressionado pela chamada "mensagem de Fátima". Quantas vezes não fugi das brincadeiras com os meus amigos porque ouvia as palavras do anjo aos pastorinhos: "porque brincais? Deveis rezar pelos pecadores"!
A visão do inferno, por exemplo: quanto pavor me provocou!

Ainda hoje me arrepio com a lembrança do sofrimento atroz que me provocava o medo do inferno e o saber que uma confissão incompleta dos meus pecados acarretaria a condenação eterna. É que eu era obrigado a confessar-me e muitas vezes não tinha coragem para relatar os tais pecados com que os padres me aterrorizavam, e que eu interiorizava como se fossem delitos de criminoso: um acto de masturbação, o surripiar cinco tostões da gaveta, uma mentira na escola...

Não me esqueço, não! E quando me vêm falar de fé e do amor de Deus, eu tenho vontade ou de rir ou de gritar.

O meu caso não foi único,  e tive bem consciência disso quando li os livros de Alçada Baptista e de outros como Virgílio Ferreira.

Respeito os crentes e amo os meus familiares que se distinguem por uma prática religiosa públicamente assumida. Mas não me peçam para assistir passivamente ao triunfalismo religioso destes dias. Sinto no mais íntimo de mim que Deus, se existe, não tem nada  a ver com isto. E não tenho dúvidas de que Fátima é um tremendo embuste que muito poucos têm a coragem de denunciar.

12.5.10

11.5.10

DESCULPEM: NÃO PODIA ESCONDER ESTE TEXTO...


Vamos todos ajudar Portugal! Demos o nosso 13º mês! E que aumente o IVA! Mostremos que não somos gananciosos!

Daniel Oliveira (www.expresso.pt) 9:00 Terça-feira, 13 de Abril de 2010 :


«UNS GANANCIOSOS, ESTES TRABALHADORES

A Administração que suga quase três por cento dos lucros da Galp nos seuspróprios salários e benefícios acusa os funcionários de falta de solidariedade por quererem um aumento.

A Galp propôs aos seus funcionários um aumento de 1,5 por cento. Os trabalhadores vão fazer uma greve. O presidente do conselho de Administração, Ferreira de Oliveira, acusou os trabalhadores de "falta de solidariedade para com o futuro da empresa".

Alguns dados:

1 - Ferreira de Oliveira recebeu, em 2009 , quase 1,6 milhões de euros, dos quais mais de um milhão em salários, 267 mil em PPR, quase 237 mil euros de prémios de desempenho (mais de 600 mil em 2008) e 62 mil para as suas despesas de deslocação e renda de casa. É um dos gestores mais bem pagos deste país.

2 - Os sete administradores da empresa (ex-ministros Fernando Gomes e Murteira Nabo incluídos) receberam 4,148 milhões de euros. Mais subsídio de renda de casa ou de deslocação, no valor de três mil euros mensais. Os 13 administradores não executivos receberam 2,148 milhões de euros. Entre os administradores não executivos está José António Marques Gonçalves, antigo CEO da petrolífera, que levou para casa uma remuneração total de 626 mil euros, incluindo 106 mil de PPR e 94 mil de bónus. No total, os 20 gestores embolsaram 6,2 milhões de euros, 2,9% dos lucros da companhia.

3 - Os trabalhadores pedem um aumento de 2,8 por cento no mínimo de 55 euros. Perante estas exigências de aumento, a administração que recebe estes salários diz que, tendo sido estes dois últimos dois anos "de crise", elas são "impossíveis de satisfazer".

4 - A Galp não está em dificuldades. Os lucros ascenderam, no ano passado, a 213 milhões de euros. No ano anterior foram de 478 milhões de euros. A empresa vai distribuir dividendos pelos accionistas. Mas ao contrário do que tem acontecido nos últimos cinco anos os trabalhadores ficam de fora. "Não é possível distribuir resultados que não alcançámos", diz Ferreira de Oliveira, que, tal como o resto da administração, não deixou de receber o seu prémio pelos resultados que não alcançou.

Os factos comentam-se a si mesmos. Por isso, ficam apenas umas notas:
A administração que suga (com uma grande contribuição do seu CEO) quase três por cento dos lucros de uma das maiores empresas nacionais acusa os trabalhadores de falta de solidariedade por quererem um aumento de 2,8 por cento. E que a greve "não defende os interesses nem de curto nem de longo prazo dos que trabalham e muito menos dos que aspiram a vir a trabalhar" na Galp.

De facto, ex-ministros pensarão duas vezes em escolher aquela empresa para dar conforto à sua reforma se os trabalhadores receberem 2,8 por cento de aumento. De facto, um futuro CEO que precise de receber mais de sessenta mil euros para pagar a sua renda de casa e deslocações (que um milhão nem dá para as despesas) pensará duas vezes antes de aceitar o cargo se os funcionários que menos recebem tiverem um aumento de 55 euros mensais. De facto, gestores que recebem prémios por "resultados não alcançados" não aceitarão dirigir uma empresa que distribui dividendos quando os lucros baixam.

A ganância destes trabalhadores desmoraliza qualquer homem de negócios mais empenhado. Assim este País não vai para a frente. A ver se os trabalhadores da Galp percebem: todos temos de fazer sacrifícios.»


CIDADÃOS PELA LAICIDADE

Acabei de assinar a seguinte petição:

Senhor Presidente da República Portuguesa,


Nós, cidadãs e cidadãos da República Portuguesa, motivados pelos valores da liberdade, da igualdade, da justiça e da laicidade, manifestamos, através da presente carta, o nosso veemente protesto contra as condições – oficialmente anunciadas – de que se revestirá a viagem a Portugal de Joseph Ratzinger, Papa da Igreja Católica.

Embora reconhecendo que o Estado português mantém relações diplomáticas com o Vaticano e que a religião católica é a mais expressiva entre a população nacional, não podemos deixar de sublinhar que ao receber Joseph Ratzinger com honras de chefe de Estado ao mesmo tempo que como dirigente religioso, o Presidente da República Portuguesa fomenta a confusão entre a legítima existência de uma comunidade religiosa organizada, e o discutível reconhecimento oficial a essa confissão religiosa de prerrogativas estatais, confusão que é por princípio contrária à laicidade.

Importa ter presente que o Vaticano é um regime teocrático arcaico que visa a defesa, propaganda e extensão dos privilégios temporais de uma religião, e que não reúne, de resto, os requisitos habituais de população própria e território para ser reconhecido como um Estado, e que a Santa Sé, governo da Igreja Católica e do «Estado» do Vaticano, não ratificou a Declaração Universal dos Direitos do Homem – não podendo portanto ser um membro de pleno direito da ONU – e não aceita nem a jurisdição do Tribunal Penal Internacional nem do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, antes utilizando o seu estatuto de Observador Permanente na ONU para alinhar, frequentemente, ao lado de ditaduras e regimes fundamentalistas.

Desejamos deixar claro que, se em Portugal há católicos dos quais uma fracção, mais ou menos importante, se regozijará com a visita de Joseph Ratzinger, há também católicos e não católicos para quem o carácter oficial da visita papal, o seu financiamento público e a tolerância de ponto concedida pelo Governo, são agressões perpetradas contra os princípios de laicidade do poder político que a própria Constituição da República Portuguesa institui.

Esta infracção da laicidade a que estão constitucionalmente vinculadas as autoridades republicanas torna-se ainda mais gritante e deletéria quando consideramos que se celebra este ano o Centenário da Implantação da República, de cujo legado faz parte o princípio de clara separação entre Estado e Igreja, contra o qual atentará qualquer confusão entre homenagens a um chefe de Estado e participação oficial dos titulares de órgãos de soberania em cerimoniais religiosos.

Declaramos também o nosso repúdio pelas posições veiculadas pelo Papa em matéria de liberdade de consciência, igualdade entre homens e mulheres, auto-determinação sexual de adultos, e outras matérias políticas.

Porque nos contamos entre esses cidadãos que entendem que a laicidade da política é condição fundamental das liberdades e direitos democráticos em cuja defesa e extensão estão apostados, aqui deixamos o nosso protesto e declaramos a Vossa Excelência o nosso propósito de o mantermos e alargarmos através de todos os meios de expressão e acção ao nosso alcance enquanto cidadãos activos da República Portuguesa.

10.5.10

PRÓS E CONTRAS?



Que programa é este que não tem "contras"? Onde é que nós estamos?
Parece uma celebração religiosa católica... Onde pára o Estado laico?

23h25:

Boa!
Um senhor chamado Carlos Azeredo, a quem antepõem um aristocrático "D" e é bispo da Igreja Católica, acaba de dizer: "O espírito santo é muito traquina e não se cansa de nos incitar à santidade."

O PAPA TAMBÉM VISITA ESTE BLOGUE - I

9.5.10

VISITA

Era de uso noutros tempos enviar a alguém de quem se gostava uma cestinha com os mimos da época: maçãs, uvas, broinhas dos Santos, doces do Natal... E um bilhetinho com "recomendações", forma tão saborosa de dar cumprimentos.




Em minha casa penduravam-se as uvas nos barrotes do tecto da cozinha e punham-se as maçãs sobre jornais, no chão da casa dos arrumos, que ficava a rescender durante semanas... Os doces vinham para a mesa e comiam-se enquanto falávamos de quem os tinha mandado...

Fernando Jorge visita-me de vez em quando. Ou melhor: como noutros tempos,  manda-me "recomendações" e "um cestinho cheio de prendas": os poemas belíssimos que ele continua a talhar no papel.

Como este que partilho com os meus amigos que aqui me visitam:



SEIXOS

A noite, o vento ( ou mesmo um verso)
transportam a escrita clara
do mundo
e numa simples frase
apetece ser puro como um seixo
rasgar os dias
com os dedos em chama

(Fernando Jorge Fabião)

7.5.10

O PAPA É QUE ESTÁ A DAR...



Os meios de comunicação social criam em volta de nós uma rodoma de atmosfera artificial.
Procuram desesperadamente o que pensam ser o sentir da maioria e carregam aí até à exaustão.
Quanto mais acertarem nesse gosto geral, mais vendem o que escrevem e o que filmam.
É o vulcão! E lá vão todos para os directos à beira do vulcão. Repetem até à náusea generalidades ou apontamentos de reportagem que nada adiantam. Porque tudo o que havia para dizer já foi dito no início.
É uma derrocada! Correm todos a chafurdar na desgraça, de manhã à noite!
Um assalto! Um desastre! Um homem que atirou um croquete à cara de um político! Directos a todas as horas:  "Ao longo do dia continuaremos a desenvolver esta notícia..."
O Benfica é quase campeão! E quem não é do Benfica, tem de suportar esta histeria encarnada?
Agora é a vinda do Papa.  É muito importante! É?
Mas o que lhes interessa é o espectáculo: os meios mobilizados para o acontecimento, as multidões a correrem para os espaços de celebração, a reportagem sobre os calos dos peregrinos a pé, as costureiras e os carpinteiros dos artefactos para as cerimónias....
Cada um procura o ponto de vista mais original, o que ninguém mais viu, o pormenor que faz a diferença.

Quem tem fé recolhe-se no aprofundamento da vida interior. E é isso que está certo, essa devia ser a preocupação dos crentes!
Quem não tem, sente-se incomodado com esta agressividade jornalística que faz de um acto eminentemente religioso um carnaval de futilidades mundanas.

Depois admiram-se que me apeteça brincar...
Estou como dizia alguém: "A televisão é muito cultural. Quando alguém a liga, pego num livro e sento-me sossegadamante noutra divisão da casa."

6.5.10

Os Contemporâneos - Papa fala aos Portugueses


Não resisto a pôr aqui esta piada, esperando não ofender a fé de ninguém.
É a minha forma de dizer que não concordo com esta misturada entre religião e poder político em que se tornou a vinda de Bento XVI a Fátima.
Esta visita, em que os chefes políticos de um Estado laico se curvam perante um chefe religioso, parece-me em tudo contrária ao preceito evangélico: "A Deus o que é de Deus e a César o que é de César".

5.5.10

O ESPECTÁCULO CONTINUA A DAR QUE FALAR...

A propósito do "Selecção Nacional" de que aqui falei há dois dias, estabeleceu-se entre mim e os seus criadores - o Rogério Costa e o Luís Filipe Cristóvão - uma troca de ideias e pontos de vista que me parecem um bom e produtivo resultado do serão que gastei a ver o tal espectáculo.
Aos leitores interessados basta entrarem na caixa de comentários desse post de 3 de Maio.



A arte contemporânea põe problemas muito sérios e interessantes a quem não se limita a consumir e procura compreender, como bem se viu neste espectáculo e se vê também, por exemplo, nas exposições de arte nos Paços do Concelho, como a que lá está agora, feita a partir do acervo de Serralves.
Se juntarmos a recente polémica sobre "o garrafão" e as mais antigas sobre as esculturas das rotundas, temos de admitir que a arte está na ordem do dia em Torres Vedras.
Luís Fortes ilustra neste cartoon, recentemente publicado no "BADALADAS", a forma mais superficial de abordar a questão. Há que aprofundar, ver mais fundo...

Há dias sugeri à responsável pela Galeria Municipal, Catarina Sobreiro, que organizasse um debate público sobre arte contemporânea.
Vamos discutir?

4.5.10

A PROPÓSITO DE OPINIÕES...


«Contigo em contradição
pode estar um grande amigo;
duvida mais dos que estão
sempre de acordo contigo.»
(António Aleixo)

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E por falar em opiniões...

Há textos que são como furacões na aparente tranquilidade do quotidiano.
Veja-se este FMI, do José Mario Branco, escrito "numa noite de Fevereiro de 1979" e que o autor considera uma "catarse cénica".
Vem transcrito no blogue "O Arrastão".
É da estirpe de textos arrasadores - em contextos bem diferentes, claro! - como o "Sei que não vou por aí", do José Régio ou o "Manifesto anti-Dantas", do Almada Negreiros.
Vale a pena ler, caramba!

3.5.10

GOSTEI DO ESPECTÁCULO!


Sábado passado, no Teatro-Cine, em Torres Vedras.
O desafio posto ao ATV (Académico de T Vedras) era criar um espectáculo integrado nas comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras.
Desafio ganho com brilhantismo.
Abordagem muito inteligente do tema, a partir dos olhos da geração mais nova. 
Um encenador seguro, Rogério Nuno Costa; um belíssimo texto de Luís Filipe Cristóvão; imagens de vídeo,  fotografia e  filme, em tela de fundo, sem colidir com as movimentações em palco: os ingredientes de um espectáculo de grande força visual.
Que não seria bastante se não fosse acompanhado de uma convincente abordagem ideológica do tema:  desconstrução dos nacionalismos,  denuncia do convencionalismo patriótico,  relativização dos sentimentos nacionais pela evidência do seu vazio,  urgência de substituir retórica de raça por género humano universal.

A sala cheia é certeza de que o ATV já criou público, depois da grande estreia com MASHUP, no ano assado.
Para melhor esclarecimento do que foi dito, veja-se AQUI.

2.5.10

Ildo Lobo - Regresso.wmv

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Sem a tua presença

o mundo é vazio

Sem o teu falar

o mundo é silêncio...

Ildo Lobo, cantor cabo-verdeano, morreu em 2004. Deixou canções de um lirismo comovente...