22.8.17

NOSTALGIA

Visitei há dias a velha casa. Se bem se recordam, recordei-a há  meses atrás, aqui.
Meus pais venderam-na em 1980, quando decidiram viver os últimos anos das suas vidas em Torres Vedras, perto dos filhos.
Os novos donos lá habitaram e fizeram algumas obras. Quando morreram, os filhos que já tinham as suas próprias moradas, deixaram aquela casa ao abandono. Até agora, quando decidiram pô-la à venda.
Não tinha qualquer intenção de a comprar mas roía-me a curiosidade de a ver de novo. De facto, nunca mais lá entrara. Telefonei aos vendedores e combinámos encontro.  Acompanhavam-me os filhos e netos, desejosos de conhecerem o lugar das suas raízes.
Como encontrar as palavras certas para descrever a decepção e o desgosto perante o que vi?










Salva-se a fachada principal que tem uma data na empena: 1937.




Este era o pátio que minha mãe caiava todos os anos pela Primavera:



Hoje está assim:


Alguém a comprará e deitará abaixo. Pelo que observei, todo o conjunto está em ruínas e não tem estrutura que possa ser recuperada.

Como cantava Leo Ferré:


Avec le temps, va, tout s'en va

On oublie le visage et l'on oublie la voix

Le coeur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller

Chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien


23.4.17

IMORTAL TCHEKHOV




Resultado de imagem para tchekhov

In: CONTOS ESCOLHIDOS, Civilização Editora, Tradução de Mário Braga, 2013. 

« (...) lia-se na cara de Neshtchapov que isso não lhe interessava nada e que há muito, muito tempo mesmo, não lia nem procurava cultivar-se. Sério, inexpressivo, como um retrato mal pintado, (...)» (Pág. 38)

Retenho: «Sério, inexpressivo, como um retrato mal pintado.»


5.4.17

AS TRASEIRAS DA VELHA CASA



Já em tempos aqui publiquei estas imagens. A elas regresso por serem oportunas, na sequência do post anterior.


Este era o pátio nas traseiras da casa. Sítio de passagem e de brincadeira, de trabalho e de convívio com os vizinhos do rés do chão. Lá em cima, a varanda era o lugar encantado da casa. Encostado à balaustrada, sentia-me comandante na amurada de um navio. Nos intervalos da navegação, andava de triciclo.
Os vasos de flores foram uma composição da minha avó Leonor que, assim, achava que a foto ficava mais bonita. Meu pai, de Kodak na mão, não se opôs. A avó Leonor era um bocado irascível.

4.4.17

25.3.17

CONFRARIA IBÉRICA DO TEJO




Há um ano realizou-se o 2º Forum Ibérico do Tejo que o texto relata com pormenores.



CONFRARIA IBÉRICA DO TEJO


Em 19 e 20 de Março de 2016, cerca de 200 pessoas reuniram-se em Vila Franca de Xira para participar no 2º Fórum Ibérico do Tejo. Estiveram presentes cidadãos portugueses e espanhóis que participaram activamente nos trabalhos. Analisaram-se temas como a gestão insustentável dos recursos da água, o mito da rentabilidade dos transvases, o património histórico-cultural do Tejo e a sua conservação e valorização, a reabilitação de linhas de água da bacia do Tejo, a astronomia no Tejo, a gestão dos recursos hídricos do Tejo, a utilização da água na bacia do Segura, as afinidades históricas entre Castilha – La Mancha e o Ribatejo, a valorização e a conservação do Tejo, e o legado cultural vivo que este rio representa. Deram corpo e alma a estes temas um conjunto de especialistas como Angél Monterrúbio Perez, António Carmona Rodrigues, Beatriz Larraz Iribas, Carlos A. Cupeto, Enrique San Martín Gonzaléz, José Bastos Saldanha, Julia Martinez Fernandéz, Máximo Ferreira, Miguel Mendez-Cabeza e Pedro Teiga. Estiveram presentes 26 autarquias, incluindo a anfitriã Vila Franca de Xira, das quais 15 Câmaras Municipais – desde Mação até Alcochete – que se fizeram representar através de stands de promoção local. De Espanha estiveram os Ayuntamientos de Talavera de la Reina e de Toledo. Esteve igualmente uma representação de Aranjuez. No grupo de conferencistas e de pessoas presentes estiveram representantes de cinco universidades – três portuguesas e duas espanholas – assim como de dois Institutos Universitários e um Instituto Politécnico (de Setúbal). Ao longo dos dois dias, o 2º Fórum Ibérico do Tejo foi o centro de um dos mais urgentes debates do nosso tempo e aí foi decidido, em sessão própria, criar a Confraria Ibérica do Tejo (CIT), tendo para o efeito sido nomeada uma Comissão Instaladora eleita pelos participantes. A dimensão transfronteiriça do Tejo implica uma visão ampla e multidisciplinar que esteve reflectida nos temas da iniciativa - Economia, Cultura e Meio Ambiente - e esses passarão a constituir o objeto social e o foco de acção da CIT. Pode sintetizar-se o espírito da futura associação como uma plataforma não reivindicativa, criada para aproximar pessoas e entidades ao longo do Tejo ibérico, para confluírem em pontos de entendimento válidos para o desenvolvimento harmonioso e sustentável das comunidades ribeirinhas. Com este espírito desenvolver-se-á uma actividade ao longo das comunidades situadas na bacia hidrográfica do rio que propicie a partilha de valores, sentimentos e interesses das populações e dos agentes políticos, económicos, culturais e ambientais, porque o Tejo precisa de recuperar a cumplicidade e a ligação entre os seus povos, através de projectos e de acções que devolvam a identidade ao rio e captem os investimentos que segurem as populações às suas origens. Além disso, a CIT procurará promover ações conjuntas com entidades que comunguem os mesmos princípios, ainda que localizadas noutras regiões da Península. A criação desta associação tem data marcada para 25 de Março de 2017, às 15 horas, no Museu do Neo Realismo, em Vila Franca de Xira. A Comissão Instaladora da Confraria Ibérica do Tejo.
(Texto in: http://www.cm-vfxira.pt/uploads/writer_file/document/15377/O_esp_rito_da_Confraria_Ib_rica_do_Tejo_e_a_sua_cria__o.pdf )

Hoje, 25 de Março de 2017, no Museu do Neo Realismo em Vila Franca de Xira, será a formalização desta nova associação.
Lá estarei. Nascido num concelho ribeirinho - Alpiarça - o Tejo foi a minha praia na juventude. Lá aprendi a nadar, em tardes de convívio sob o quentíssimo sol de Verão do Ribatejo.
Tejo - o grande rio da Península - necessita da participação dos cidadãos na sua defesa e preservação. Veja-se a gravíssima situação verificada há cerca de um mês:

http://elegante.pt/2017/02/09/poluicao-gravissima-do-rio-tejo-filmada-por-drones/











Lembrei-me de um belo livro que recebi há uns anos como prenda de anos. Com ele recordei as paisagens e os lugares habitados que rodeiam o grande rio, nos seus 1 070 km de percurso deste a Serra de Albarracim até ao Atlântico





Inevitavelmente, vem à memória o poema de Alberto Caeiro:

Pelo Tejo Vai-se para o Mundo

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, 
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia 
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. 
O Tejo tem grandes navios 
E navega nele ainda, 
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
A memória das naus. 
O Tejo desce de Espanha 
E o Tejo entra no mar em Portugal. 
Toda a gente sabe isso. 
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia 
E para onde ele vai 
E donde ele vem. 
E por isso porque pertence a menos gente, 
É mais livre e maior o rio da minha aldeia. 
Pelo Tejo vai-se para o Mundo. 
Para além do Tejo há a América 
E a fortuna daqueles que a encontram. 
Ninguém nunca pensou no que há para além 
Do rio da minha aldeia. 
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. 
Quem está ao pé dele está só ao pé dele. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XX" 
Heterónimo de Fernando Pessoa
.....................................................................
Ou, de António Gedeão

Poema da Memória

Havia no meu tempo um rio chamado Tejo 
que se estendia ao Sol na linha do horizonte. 
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia 
exactamente um espelho 
porque, do que sabia, 
só um espelho com isso se parecia. 

De joelhos no banco, o busto inteiriçado, 
só tinha olhos para o rio distante, 
os olhos do animal embalsamado 
mas vivo 
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes. 
Diria o rio que havia no seu tempo 
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte, 
onde dois grandes olhos, 
grandes e ávidos, fixos e pasmados, 
o fitavam sem tréguas nem cansaço. 
Eram dois olhos grandes, 
olhos de bicho atento 
que espera apenas por amor de esperar. 

E por que não galgar sobre os telhados, 
os telhados vermelhos 
das casas baixas com varandas verdes 
e nas varandas verdes, sardinheiras? 
Ai se fosse o da história que voava 
com asas grandes, grandes, flutuantes, 
e poisava onde bem lhe apetecia, 
e espreitava pelos vidros das janelas 
das casas baixas com varandas verdes! 
Ai que bom seria! 
Espreitar não, que é feio, 
mas ir até ao longe e tocar nele, 
e nele ver os seus olhos repetidos, 
grandes e húmidos, vorazes e inocentes. 
Como seria bom! 

Descaem-se-me as pálpebras e, com isso, 
(tão simples isso) 
não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada. 

António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'