31.3.09

O PAPÃO

" O papão" - Gravura de Gustave Doré


As crianças têm medo à noite, às horas mortas,
Do papão que as espera, hediondo, atrás das portas,
Para as levar no bolso ou no capuz dum frade.
Não te rias da infância, ó velha humanidade,
Que tu também tens medo ao bárbaro papão,
Que ruge pela boca enorme do trovão,
Que abençoa os punhais sangrentos dos tiranos,
Um papão que não faz a barba há seis mil anos,
E que mora, segundo os bonzos têm escrito,
Lá em cima, detrás da porta do infinito!

(Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno)


É uma característica atávica de uma parte da sociedade portuguesa: a reverência subserviente perante os detentores de Poder. Tem origem, talvez, nas muitas gerações que foram educadas na confusão entre poder temporal e poder espiritual. Eclesiásticos e aristocratas alimentavam esta mistura, que convinha aos dois estratos sociais e mantinha o povo de joelhos, amedrontado perante os castigos temporais na Terra e o castigo eterno no Além.
E isto é tanto assim que ainda hoje uma parte significativa da "dita" mensagem de Fátima radica no medo: três pobres e inocentes crianças da serra d'Aire foram confrontadas com uma visão terrífica do inferno. E o que poderia ter sido um episódio de superstição datado do início do século XX foi sancionado pelos Papas que erigiram Fàtima como prolongamento da Revelação Divina, ao arrepio da própria doutrina tradicional da Igreja que considera a Revelação concluída com os últimos textos do Novo Testamento.
Mantém-se, pois, extremamente actual o poema de Guerra Junqueiro. E todo o livro, aliás, que constitui uma poderosa denúncia de todos os bonzos, que fazem do medo o pedestal do seu poder.

28.3.09

RAÍZES DO CORAÇÃO



Em Portugal há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo.
Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão. Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.
O Alentejo é o fôlego, a extensão do alento. A serenidade criadora. Compreende-se que fosse do seio da imensa planura alentejana que nascessem a fé e a esperança num destino nacional do tamanho do mundo. O Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito e a realidade dum solo exausto.
(Miguel Torga)

A estas terras se prendem as “RAÍZES DO CORAÇÃO” que vamos hoje cantar.
Coral GAUDEAMUS, no Convento da Graça, às 21.30 horas.

EU VIVIA NA RUA...


Agora
Tu és a minha casa
Foto (C) Méon

26.3.09

DESEJO...


Queria neste poema a cor dos teus olhos
e queria em cada verso o som da tua voz:
depois, queria que o poema tivesse a forma
do teu corpo, e que ao contar cada sílaba
os meus dedos encontrassem os teus,
fazendo a soma que acaba no amor.

Queria juntar as palavras como os corpos
se juntam, e obedecer à única sintaxe
que dá um sentido à vida; depois,
repetiria todas as palavras que juntei
até perderem o sentido, nesse confuso
murmúrio em que termina o amor.

E queria que a cor dos teus olhos e o som
da tua voz saíssem dos meus versos,
dando-me a forma do teu corpo; depois,
dir-te-ia que já não é preciso contar
as sílabas, nem repetir as palavras do poema,
para saber o significado do amor.

Então dar-te-ia o poema de onde saíste,
como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia
pela mão, contando os passos do amor.


Poema de Nuno Júdice
in O Estado dos Campos
Reprodução de quadro de
Noronha da Costa

22.3.09

OLHARES DE OUTRORA


De súbito eles vieram de longe e pararam à minha porta. Isabel F., Luís R.
Do velho álbum, a fotografia de Dezembro de 1964 vem dizer-me quantos anos temos.
Recordem-se lá, meus amigos! Liceu Sá da Bandeira, em Santarém... 7º ano de Letras...
Sem saudades! Porque a vida é o hoje vindo de ontem.
Meus queridos amigos!

19.3.09

VERTICALIDADE


Quando à beira do mar as almas se destroem
e os barcos se exercitam nas glórias vãs
é bom saber que um homem está de pé
na ponta do rochedo
e tem espelhada na fronte
a imensidão do mar.
É bom saber que os olhos
se espraiam na distância
e constroem na bruma
o horizonte.

João Rui de Sousa, O Fogo Repartido

Foto (C) Rosário Soares, Olhares.com

15.3.09

ÁRVORE


cego
de ser raiz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo


Mia Couto, 1985
Foto (C) Méon(Mata do Senhor do Calvário, T. Vedras)

13.3.09

DE REPENTE, TANTO SOL!

Sol-chama, que nos chama...
Caminho pedregoso, aonde nos leva?









Alguém escavou estes montes. Sinais de guerra...

Onde estamos? Ver:

http://linhasdetorres.blogspot.com/

O sol de hoje, em contraste com o negrume de lutas antigas...

Fotos (C) Méon

12.3.09

"NUNCA MAIS"




Talvez a folha que ali vai no vento

Te volte aos ramos, árvore que choras...

Não voltam as que levam o esquecimento!

São as folhas do tempo, são as horas.


A folha que revoa pelos rasos

Nas asas dos tufões é feliz, ela!

Que até desfeita em pó, nos seus acasos,

Pode às vezes o vento ali trazê-la;


E pode, entre as raízes do arvoredo,

Ir na seiva do ramo onde nascera,

Tornando a ser ainda, tarde ou cedo,

Nova folha de nova Primavera.


Mas quem me dera a mim achar no vento

Em horas de saudade, em horas tristes,

Um pó que fosse vosso, um só momento,

Folhas do tempo que a voar fugistes!...

(Fernando Caldeira)

Foto (C) Méon

11.3.09

VAMPIROS


Eles sugam o sangue do país mas são a nossa elite. Sempre sorridentes nas revistas que muita gente adora ler porque "me distraem dos problemas da vida"...(ouvi isto muitas vezes!)
E enquanto nos vamos distraindo, eles vão à igreja e educam os filhos nos colégios particulares. Para os ensinar a participarem em reuniões de trabalho, como eles....
A crise é feita do sangue que lhes escorre da boca...
Estou a exagerar? Deve ser de ter lido isto...




in: Diário de Noticias de 8 de Março de 2009
Corte de três milhões na supervisão do BCP

PAULA CORDEIRO

Assembleia Geral de Março. Um grupo de accionistas do BCP, liderado por Joe Berardo, segue as pisadas da nova administração e propõe um corte de 50% nas remunerações do Conselho Geral e de Supervisão. A este juntam-se mais 2,3 milhões de ganhos com a extinção do Conselho Superior.

O Banco Comercial Português (BCP) vai proceder a um corte radical nas remunerações dos seus órgãos sociais. Com a proposta de extinção do Conselho Superior (CS) e a aprovação da proposta de remunerações para o Conselho Geral e de Supervisão (CGS) o banco vai poupar mais de três milhões de euros já este ano. Só o presidente deste órgão ganhava 360 mil euros por ano, para participar em quatro reuniões. Um ganho de 90 mil euros por reunião.

As propostas à assembleia geral de dia 30 deste mês foram já publicadas e são assinadas por alguns dos maiores accionistas do BCP, ou seja, Sonangol, Joe Berardo, EDP, Sogema e Investifino.
Mas este grupo de accionistas está a trabalhar para contar com mais apoios, entre eles a Eureko. É um trabalho liderado pelo presidente do Conselho de Remunerações. Joe Berardo, em declarações ontem ao DN, disse apenas disse que "estamos todos a trabalhar nisso".
Além da já conhecida proposta de extinção do CS, este grupo de accionistas quer reduzir para 50% as remunerações do CGS, que deverá ser substituído por membros designados por estes proponentes. Luís Champalimaud é o presidente proposto, uma escolha que coincide com o afastamento dos membros ainda afectos a Jardim Gonçalves. O DN sabe que o presidente da Eureko, Gijsbert Swalef, não ficará no futuro CGS, com a seguradora holandesa a ter de indicar outro nome.
O corte de 50% nas remunerações actuais do CGS vai ditar uma poupança de quase um milhão de euros face a 2008, em que estes custos somaram 1,9 milhões de euros. Também os gastos em funcionamento deste órgão deverão sofrer reduções: no ano passado, as deslocações e outras despesas do Conselho atingiram três milhões de euros. Segundo o DN apurou, os 24 membros do CS representaram gastos em remunerações de 2,3 milhões de euros, contra 3,5 milhões de euros em 2007.

Actualmente, a remuneração do presidente do CGS do BCP é de 360 mil euros anuais, tendo como obrigação mínima a presença em quatro reuniões ordinárias por ano.
O vice-presidente, por seu lado, ganha 290 mil euros anuais, caso integre comissões especializadas. Caso não o faça, a sua remuneração é de 150 mil euros anuais.
Os restantes nove vogais do CGS (o órgão é composto por onze elementos) ganha cadaum, por ano, 150 mil euros, caso participe em comissões especializadas, ou 115 mil euros, caso não integre. Na proposta que este grupo de accionistas vai levar à assembleia geral, estas remunerações passam para 25% e 10% do vencimento do presidente, em função da sua participação ou não em comissões.
Estas propostas elaboradas por Berardo e apoiadas pelos maiores accionistas do BCP surgem na sequência das decisões tomadas pela actual administração executiva, desde a sua tomada de posse, em 2008.
Os cortes decretados pela equipa liderada por Carlos Santos Ferreira já produziram efeitos nos custos com remunerações deste órgão executivo. Em 2006, quando o presidente era Paulo Teixeira Pinto, o conselho de administração do BCP representou um custo em remunerações de 29,5 milhões de euros (21,5 milhões de remuneração variável); no ano passado, o custo total foi de 3,4 milhões de euros. (D. Notícias, 8 Março 2009)
O Teixeira Pinto agora é pintor e escreve livros... Intelectual...
Qualquer dia arranja uma Fundação filantrópica para apoio às vítimas da crise...E os jornalistas vão lá todos beijorcar-lhe as mãos caridosas...

6.3.09


Hoje há
SOPA DE PEDRA
no claustro do Convento da Graça
O tema: "A história do tempo."
Não esquecer: dias 13 e 20 há mais. A ideia é comer uma bela sopa no meio das pedras centenárias daquele espaço e depois ouvir alguém falar sobre um tema e dialogar sobre ele.
Um serão diferente.
Lá estaremos!




Amanhã será na Tuna: um CAFÉ SEM CONSERTO" mas muito consertado, espera-se...Uma brincadeira quase a sério, que mete enredo policial, dança e cantoria. As mesas vão ter velinhas acesas...

Dizem-me que a lotação já está esgotada e que houve gente que comprou bilhetes no Turismo e sacos de tomate maduro na loja do lado...

Depois conto, se sobreviver...

Miguelângelo Buonarroti


Nasceu há 534 anos. No dia 6 de Março de 1475.
Escultor? Pintor? Arquitecto? Poeta?

4.3.09

RAÍZES DO CORAÇÃO


RAÍZES DO CORAÇÃO
Um espectáculo a ver!
Convido os meus amigos a partilharem a música tradicional portuguesa que nós gostamos de cantar!

Dia 28 de Março de 2009
na
Sala Polivalente do Convento da Graça
TORRES VEDRAS

PODEM PASSAR ADIANTE...

Não costumo transcrever textos longos. Se não apetecer ler, passem adiante, não levo a mal...
Mas como este é um espaço de partilha, não fui capaz de guardar só para mim. Cid Simões deu-me a ligação para um texto que me parece importante. É uma tentativa de explicação para o que (nos) está a acontecer. Coisas inquietantes, de facto. Desemprego maciço, pensões de reforma que serão cada vez menores, catástrofes ambientais, economias em colapso...
É um texto um pouco longo mas que considero esclarecedor, ao contrário de certas "teses" cheias de conceitos do séc. XIX...



Sinais de implosão

Rumo à desintegração do sistema global
por Jorge Beinstein [*]

Setembro de 2008 foi um ponto de inflexão no processo recessivo que se iniciara nesse ano nos Estados Unidos: estalou o sistema financeiro e a recessão começou a estender-se rapidamente a nível planetário. Ao mesmo tempo, evidenciavam-se sintomas muito claros de transição global para a depressão e a sua chegada começou a ser admitida em princípios de 2009. Agora assistimos a um encadeamento internacional de quedas produtivas e financeiras. Ele é acompanhado por uma mistura de pessimismo e impotência diante da provável transformação da onda depressiva em colapso geral, ao mais alto nível das elites dirigentes. As declarações de George Soros e Paul Volkcker na Universidade de Columbia a 21 de Fevereiro de 2009 assinalaram uma ruptura radical [1] , muito mais séria do que a de Alan Greenspan dois anos atrás quando anunciou a possibilidade de os Estados Unidos entrarem em recessão. Volcker admitiu que esta crise é muito mais grave que a de 1929. Isso significa que a mesma carece de referências na história do capitalismo. O desaparecimento de paralelismos em relação a crises anteriores refere-se também (e principalmente) aos remédios conhecidos. Porque 1929 e a depressão que se seguiu estão associados à utilização com êxito dos instrumentos keynesianos, à intervenção maciça do Estado como salvador supremo do capitalismo. E o que estamos a presenciar agora é a mais completa ineficácia dos Estados dos países centrais para superar a crise.

Na realidade, a avalanche de dinheiro que eles lançam sobre os mercados para auxiliar bancos e algumas empresas transnacionais não só não trava o desastre em curso como também está a criar as condições para futuras catástrofes inflacionárias, as próximas bolhas especulativas. IMPLOSÃO CAPITALISTA? Soros, por sua vez, confirmou aquilo que já era evidente: o sistema financeiro mundial desintegrou-se, ao que acrescentou a descoberta de semelhanças entre a situação actual e aquela vivida durante o derrube da União Soviética. Quais são esses paralelismos? Como sabemos, o sistema soviético começou a desmoronar-se em fins dos anos 1980 para finalmente implodir em 1991. O fenómeno foi geralmente atribuído à degradação da sua estrutura burocrática o que o tornava em princípio intransferível para o capitalismo que também alberga uma vasta burocracia (ainda que não hegemónica como no caso soviético). Mas existe um processo, uma doença que não é património exclusivo dos regimes burocráticos, que se desenvolveu no capitalismo tal como nas civilizações anteriores à modernidade: trata-se da hipertrofia parasitária, do domínio esmagador de formas sociais parasitárias que depredam as forças produtivas até um ponto tal em que o conjunto do sistema fica paralisado, não pode reproduzir-se mais e finalmente morre afogado no seu próprio apodrecimento.

Ao longo do século XX o capitalismo impulsionou estruturas parasitárias como o militarismo e sobretudo as deformações financeiras que marcaram a sua cultura, seu desenvolvimento tecnológico, seus sistemas de poder. As últimas três décadas assistiram à aceleração do processo — adornado com o discurso da reconversão neoliberal, do reinado absoluto do mercado. Talvez o seu ponto mais alto tenha sido alcançado durante o último lustro do século XX, em plena expansão das bolhas bursáteis e quando o poder militar dos Estados Unidos parecia ser imbatível. Mas na primeira década do século XXI começou o desmoronamento do sistema. O Império afundou no pântano de duas guerras coloniais, sua economia degradou-se velozmente e bolhas financeiras de todo tipo (imobiliárias, comerciais, de endividamento, etc) povoaram o planeta. O capitalismo financiarizado havia entrado numa fase de expansão vertiginosa esmagando com o seu peso todas as formas económicas e políticas. Em 2008 os Estados centrais (o G7) dispunham de recursos fiscais num montante da ordem de 10 milhões de milhões de dólares contra 600 milhões de milhões em produtos financeiros derivados registados pelo Banco da Basiléia (BIS), ao que é necessário acrescentar outros negócios financeiros. Segundo alguns peritos, actualmente a massa especulativa global supera os 1000 milhões de milhões (cerca de 20 vezes o Produto Bruto Mundial). Essa montanha financeira não é uma realidade separada, independente da chamada economia real ou produtiva. Foi engendrada pela dinâmica do conjunto do sistema capitalista: pelas necessidades de rentabilidade das empresas transnacionais, pelas necessidades de financiamento dos Estados. Não é uma rede de especuladores autistas lançados numa espécie de auto-desenvolvimento suicida e sim a expressão radicalmente irracional de uma civilização em decadência (tanto a nível produtivo como político, cultural, ambiental, energético, etc).

Há mais de quatro década o capitalismo global com eixo nos países centrais suporta uma crise crónica de superprodução, acumulando sobrecapacidade produtiva perante uma procura global que crescia mas cada vez menos. A droga financeira foi a sua tábua de salvação, melhorando lucros e impulsionando o consumo nos países ricos, ainda que a longo prazo tenha envenenado totalmente o sistema. Foi posto em moda lançar a culpa da crise nos chamados especuladores financeiros. Segundo nos explicam altos dirigentes políticos e peritos mediáticos, as turbulências chegarão ao seu fim quando a "economia real" impuser a sua cultura produtiva submetendo às regras do bom capitalismo as redes financeiras hoje fora de controle. Contudo, em meados da década actual, nos Estados Unidos mais de 40% dos lucros das grandes corporações provinha dos negócios financeiro [2] . Na Europa a situação era semelhante. Na China, no momento do maior auge especulativo (fins de 2007), só a bolha bursátil movia fundos quase equivalentes ao PIB desse país [3] , alimentada por empresários privados e públicos, altos burocratas, profissionais, etc. Não se trata por conseguinte de duas actividades, uma real e outra financeira, claramente diferenciadas, e sim de um só conjunto heterogéneo, real, de negócios. É esse conjunto que agora está a desinchar velozmente, a implodir depois de haver chegado ao seu máximo nível de expansão possível nas condições históricas concretas do mundo actual.

Sob a aparência imposta pelos meios globais de comunicação de uma implosão financeira que afecta negativamente o conjunto das actividades económica (algo assim como uma chuva tóxica a atacar as pradarias verdes) surge a realidade do sistema económico global como totalidade a contrair-se de maneira caótica.

SINAIS

As declarações de Soros e Volcker foram efectuadas poucos dias antes de o governo norte-americano ter dado a conhecer os números oficiais definitivos da queda do Produto Interno Bruto no último trimestre de 2008 em relação a igual período de 2007: a primeira estimativa oficial que fixara a referida queda em 3,8% verificou-se ser uma mentira grosseira. Agora verifica-se que a contracção chegou aos 6,2% [4] — isso já não é recessão e sim depressão. O Japão por sua vez teve no mesmo período uma descida do PIB da ordem dos 12% e em Janeiro de 2009 as suas exportações caíram 45% em comparação com o mesmo mês do ano anterior [5] . Na Europa a situação é semelhante ou talvez pior. Após o derrube financeiro da Islândia, a ameaça da bancarrota económica em vários países da Europa do Leste como a Polónia, Hungria, Ucrânia, Letónia, Lituânia, etc, ameaça de maneira directa os sistemas bancários credores da Suíça e da Áustria, que poderiam fundir-se como o da Islândia. Enquanto isso, os grandes países industriais da região, como Alemanha, Inglaterra ou França, vão passando da recessão à depressão. Os prognósticos sobre a China anunciam para 2009 uma redução da sua taxa de crescimento à metade do de 2088. Suas exportações de Janeiro foram 17,5% inferiores às de Janeiro do ano anterior [6] . Esta brusca deterioração do centro vital do seu sistema económico não tem perspectivas de recuperação enquanto durar a depressão global, pelo que o seu ritmo de crescimento geral continuará a descer.

Que Soros e Volcker abram a expectativa de um colapso do sistema económico mundial não significa que o mesmo se produza de modo inevitável. Afinal de contas, uma das principais características de uma decadência civilizacional como a que estamos a presenciar é a existência de uma profunda crise de percepção nas elites dominantes. Contudo, a acumulação de dados económicos negativos e a sua projecção realista para os próximos meses estão a indicar que a grande catástrofe anunciada por eles tem probabilidades de realização muito altas. Para esse desenlace contribuem a impotência comprovada dos supostos "factores de controle" do sistema (governos, bancos centrais, FMI, etc) e a rigidez política do Império. Ao ampliar, por exemplo, a guerra no Afeganistão — preservando assim o poder do Complexo Industrial Militar, gigante parasitário cujos gastos reais actuais (aproximadamente pouco mais de um milhão de milhões de dólares por ano) equivale a 80% do défice fiscal dos Estados Unidos. A estes sintomas económicos e políticos devemos acrescentar a crise energética e alimentar dela derivada, que certamente voltarão a manifestar-se mal se detenha o processo inflacionário (e talvez antes).

Tudo isso num contexto de crise ambiental que passou a ser um factor actual de crise (já não é mais uma ameaça quase intangível localizada num futuro longínquo). E por trás dessas crises parciais encontramos a presença da crise do sistema tecnológico moderno, incapaz de superar – como componente motriz da civilização burguesa – os bloqueios energéticos e ambientais criados pelo seu desenvolvimento depredador.

DESINTEGRAÇÃO, IMPLOSÃO E DISJUNÇÃO

A desintegração-implosão do sistema global não significa a sua transformação num conjunto de subsistemas capitalistas ou blocos regionais com relações mais ou menos fortes entre si, alguns prósperos, outros declinantes (a unipolaridade estado-unidense convertendo-se em multipolaridade, "disjunção" ordenada em torno de novos ou velhos pólos capitalistas). A economia mundial está altamente transnacionalizada, forma um denso emaranhado de negócios produtivos, comerciais e financeiros que penetra profundamente as chamadas "estruturas nacionais", investimentos e dependências comerciais atam-nas de maneira directa ou indirecta aos núcleos decisivos do sistema global. Em termos gerais, para um país ou uma região, a ruptura dos seus laços globais ou o seu enfraquecimento significativo implica uma enorme ruptura interna, o desaparecimento de sectores económicos decisivos com as consequências sociais e políticas que daí decorrem. Além disso, até agora o sistema global estava organizado de maneira hierárquica tanto no seu aspecto económico como político-militar (unipolaridade) devido ao fim da Guerra Fria e da transformação dos Estados Unidos no senhor do planeta. Não só no espaço de concentração das decisões comerciais e financeiras (isso já ocorria há mais de seis décadas) como também das grandes decisões políticas. O afundamento do centro do mundo [7] em meio à depressão económica internacional significa o desencadear de uma cadeia global de crises (económicas, políticas, sociais, etc) de intensidade crescente. Recentemente Zbigniew Brzezinski pôs de lado as suas tradicionais reflexões sobre política internacional para alertar acerca da possibilidade de agravamento dos conflitos sociais dentro dos Estados Unidos que, segundo ele, poderia derivar em distúrbios violentos generalizados [8] . Por sua vez, e a partir de uma perspectiva ideológica oposta, Michael Klare descreveu o mapa dos protestos populares que atravessa todos os continentes, países ricos e pobres, do Norte e do Sul, iniciados em 2008 como consequência da crise alimentar num amplo leque de países periféricos mas que começam a desenvolver-se globalmente em resposta ao agravamento da depressão económica [9] : a multiplicação de crises de governabilidade aguarda-nos a curto prazo.

A hipótese da implosão capitalista abre o espaço para a reflexão e a acção quanto ao horizonte pós capitalista, onde se misturam velhas e novas ideias, ilusões fracassadas e densas aprendizagens democráticas do século XX, travões conservadores legitimando ensaios neocapitalistas e visões renovadas do mundo a pressionar grandes inovações sociais. A agonia da modernidade burguesa com os seus perigos de barbárie senil — mas ruptura de bloqueios ideológicos, de estruturas opressivas e de esperança na regeneração humanista das relações sociais.
02/Março/2009

Notas (1) "Soros sees no bottom for world financial 'collapse' ", Reuters. Sat Feb 21, 2009. David Randall and Jane Merrick, "Brown flies to meet President Obama for economy crisis talks" , The Independent , Sunday, 22 February 2009. (2) US Economic Report for the President, 2008. (3) Em Agosto de 2007 a capitalização das bolsas chinesas superava o valor do Produto Interno Bruto do ano 2006. Dong Zhixin, "China stock market capitalization tops GDP", Chinadaily ( http://www.chinadaily.com.cn/china/2007-08/09/content_6019614.htm ) (4)Cotizalia.com, 27 febrero 2009, "El PIB de EEUUse hunde un 6,2% en el cuarto trimestre". (5) BBC News, 25-2-2009, "Japan exports drop 45 % to new low". (6) "China's export down 17.5% in January", Xinhua, 2009-02-11. (7) Jorge Beinstein, "El hundimiento del centro del mundo. Estados Unidos entre la recesión y el colapso". Rebelión, 8-5-2008 ( http://www.rebelion.org/noticia.php?id=67099 ). (8) "Brzezinski: 'Hell, There Could Be Even Riots' ", FinkelBlog – 20/02/2009 - brzezinski-hell-there-could-be-even-riots ). (9, Michael Klare, "A planet at the brink?", Asia Times, 28 de Fevereiro de 2009. [*] jorgebeinstein@gmail.com Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .