29.7.08

TÁ BEM....PRONTO!

( Ó p'ra mim a pensar...)

A minha amiga Lenib quer saber as 8 (oito!) coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer. É uma brincadeira que já lhe fizeram, destas que nos ajudam a suportar a chatice das férias...
Só 8? A minha lista tem p'raí umas quinhentas páginas...
Mas só consigo lembrar-me de...
1º - Acabar de passar aquela roupa toda a ferro!!!
2º - Voltar a passear de bicicleta, durante algumas tardes, pelos arredores de Alpiarça...
3º - Visitar Valparaíso para conhecer a casa onde viveu Pablo Neruda.
4º - Ler todos os livros que tenho na lista dos "livros a ler".
5º - Ver todas as óperas clássicas que ainda não vi.
6º - Ouvir ainda, daqui a 40 anos, as palavras de ternura que estou a ouvir agora...
Se alguém quiser prosseguir a brincadeira...













REGRESSEI e... trago novidades


Em 13 de Julho deixei aqui uma referência às Termas dos Cucos, uma antiga estância termal às portas de Torres Vedras, na estrada que vai desta cidade para Alenquer.
Texto entre a ironia e o desencanto. Lembram-se?

Procurei saber mais. Fonte credível informou-me que aquele espaço maravilhoso havia sido comprado pelo BES. A ideia é fazer voltar à vida as Termas dos Cucos.
Boa notícia, esta! Até porque as qualidades terapêuticas das lamas sulfurosas são bem conhecidas.

Retiro o desencanto, apago a ironia e aguardo o início das obras de restauro.




[Fotos (C) Méon]





23.7.08



O ÚLTIMO DIÁLOGO


Ao morrer, os olhos dizem
Sempre o mesmo: - Espera aí!
Vida, não vás tão depressa,
Que ainda te não vivi...


E a vida passa e a morte
É que responde em vez dela:
- Mas que culpa tem a vida
De não saberem vivê-la?

(Manuel Laranjeira, 1877 - 1912)
Imagem: Gustav Klimt, Death and life

22.7.08




HAMLÉTICA



Tenho aqui neste dedo o teu anel, Maria
Adelaide Pereira!
Doce recordação desse inefável dia
Em que eu beijei teu rosto lívido de freira.



Teu rosto lívido de freira... Ah! Que poesia
Na angústia derradeira
Quando eu me separei dos teus braços, Maria
Adelaide Pereira!



Ouço-te ainda: - « A tua pálida Maria
Adelaide Pereira,
Louca de Dor, ébria de Sonho e Nostalgia,
Vai para o claustro! Hamlet! Ofélia é quase freira...»


Demos, então, as mãos... surdo rumor se ouvia.
Do bobo Yorik ria a singular caveira!
E ria-se de nós, do nosso amor, Maria
Adelaide Pereira.


É forçoso partir... Adeus Maria
Adelaide Pereira!
Os teus nomes que têm Mistério e Liturgia,
Hei-de tê-los na boca a minha vida inteira!


Lembro-me bem... Era Sol-posto, o céu, violáceo,
E sobre a areia d'oiro a espreguiçar-se o Lima...
Com que tristeza tu disseste: - «Adeus, Inácio
D'Abreu e Lima!»

Poema de António Feijó (1862 - 1917)
Ilustração da Net

21.7.08

EVOCAR O SANGUE DERRAMADO

Caminhar pelos campos de batalha da Roliça e do Vimeiro! Olhar aqueles espaços e "ver" o
horror da guerra.

O dia estava quente, luminoso, as paisagens eram deslumbrantes, mas era impossível não pensar naqueles homens que, em 1808, vieram de França e da Inglaterra para se matarem uns aos outros aqui!
A buganvília que escorre da parede tem a cor do sangue daqueles homens, empurrados para a morte.
De tantos que cairam resta a memória material do tenente-coronel Lake, oficial inglês, a quem os companheiros de armas erigiram este monumento, grito solitário na paisagem, algures nos campos da Roliça, aldeia dos arredores de Óbidos...
Na nossa memória parecem soar ainda os tambores que rufavam nestes ermos, a marcar a cadência dos condenados à guerra.

18.7.08

CONSELHOS INÚTEIS

Não é um roubo retirares da paisagem
uma andorinha ou uma cadeira, mas não é simpático.
Daí a considerares o que digo um convite à imobilidade
parece-me exagero.
Move-te, sim, mas acrescentando
coisas e assuntos à paisagem onde entras. Eis só.
[Gonçalo M. Tavares, Poesia I]
... É o que vamos tentar fazer amanhã, pelos campos da Roliça e do Vimeiro.

O que vamos fazer? Está explicado aqui :

http://linhasdetorres.blogspot.com/

17.7.08

HISTÓRIAS DA HISTÓRIA



Já era tempo, não?...
EM 17 DE JULHO DE 1453 TERMINOU A GUERRA DOS CEM ANOS!

Na realidade durou 116 anos. Tudo começou em 1337 quando Eduardo III de Inglaterra reivindicou a coroa de França. Achava ele que tinha esse direito porque era neto de Filipe O Belo pelo lado da mãe, Isabel de Valois.
Os ingleses (mesmo sem Beckamp) tiveram vitórias retumbantes ( Crécy, Poitiers, Agincourt...) mas claudicaram quando a França contratou Joana d'Arc. Esta, com a ajuda interesseira do Altíssimo, só parou quando os ingleses conseguiram prendê-la a um poste com um molho de lenha seca por baixo. Mas o trono para o doido do Eduardo III já era... Até porque entretanto ele já tinha morrido.
Foi nesta guerra que os ingleses inventaram o arco capaz de atirar setas de 75 cm de comprimento, que conseguiam perfurar as armaduras. Os franceses deixaram de andar descansados pelos campos de batalha....
Faz hoje 555 anos ( foi em 1453) que terminou a guerra...
Os meus parabéns aos vencedores!

(Não lhe chega o que leu? Clique AQUI ou AQUI)
Eu, entretanto, despeço-me...

16.7.08

HOMENAGEM



António Cordeiro Melo: um amigo que partiu.
Um "HOMEM BOM" que deixa um rasto cultural inapagável.
A minha homenagem no próximo número do jornal Badaladas, de Torres Vedras.
Já está no LUGAR ONDE

15.7.08

T E R N U R A



Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
(David Mourão-Ferreira)

ESCADAS

São um apelo. Subir, subir sempre! Porque lá em cima os olhos vão mais longe!


Fotos 1 e 2: Santuário de Nª Srª do Pranto, em Dornes

Torre medieval de Dornes


Convento de Cristo, Tomar
Fotos(C) Méon, Julho de 2008

14.7.08

Pão de palavras


A pão sabem as palavras,
quando a brisa do sul nos roça a cara.
Seguro, nas duas mãos, as tuas mãos
e sob o peito (o teu, o meu), alastram ramos
transparentes que sustêm, na casa,
a trave-mestra, como se a raiz
de cada árvore nos amarrasse
as veias ao destino do coração.

Graça Pires
in: Cem Poemas Portugueses no Feminino
Ed. Terramar, Lx.,2005
Foto (C) Méon

13.7.08

Imagens do meu olhar... As Termas dos Cucos










Olha! As Termas dos Cucos de carinha lavada! - reparei hoje quando por lá passei.
Espantei-me. Sendo este um espaço belíssimo que não tem tido qualquer utilização e se apresentava degradado - há meses que lá não punha os pés, tão deprimente aquilo era! - o novo aspecto significava que as Termas iriam ressuscitar?
Tratei de tirar umas fotos para memória futura...
Afinal, parece que não. Fui informado de que se trata apenas de um alindamento exterior para que o espaço possa ser utilizado como cenário de filmagens... Lá por dentro continua entregue aos ratos e ao caruncho...
Já devias saber! Estás em Portugal, animal!
FOTOS © MÉON

11.7.08

Goya


A exposição sobre Goya, no Museu do Prado, foi uma descoberta fantástica. Toda a obra ali exposta mostrava a modernidade de um pintor do séc. XIX que prenunciou toda a evolução posterior da pintura até aos nossos dias.

O célebre quadro dos fuzilamentos de Madrid - aquando da ocupação das tropas napoleónicas - é monumental! Pelo tamanho e pela força que transmite.

Hoje, ao revê-lo em reprodução, não pude deixar de o associar ao célebre poema de Jorge de Sena - poeta que nos deixou há trinta anos...

Por coincidência, o meu amigo Cid Simões enviou-me esse poema em forma de abraço desejando-me bom fim-de-semana.



Carta a Meus Filhos

Os Fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interessa para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo, que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas de ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
-- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena

Cid Simões juntou esta nota:
Sónia Betancur é colombiana e vive em Bogotá, o marido Guilhermo Rivera membro do Pólo Democrático Alternativo que governa o município é também Presidente do Sindicato dos funcionários da autarquia da capital do país e membro do Partido Comunista. Quando no dia 22 de Abril foi levar a filha à escola foi forçado a entrar num carro da Polícia Metropolitana e até hoje desconhece-se o seu paradeiro.
Desde o princípio do ano já foram assassinados 19 sindicalistas.
A todos eles dedico este poema de Jorge de Sena.


Goya continua a ser uma bandeira de liberdade!

9.7.08

Imagens do meu olhar...DORNES






Pegue-se num mapa de Portugal. Procure-se o centro. Vê-se Tomar? Ande-se com o dedo um pouco para Norte, seguindo as margens da barragem do Castelo do Bode. Lá está Dornes, (concelho de Ferreira do Zêzere).
Vila antiquíssima, teve foral no tempo de D. Manuel I, foi terra de Templários que lá construiram aquele que é o ex-libris da povoação: a torre pentagonal, ponto de vigia importante na época medieval.
A povoação está assente numa península que entra pela albufeira, criando lugares de belíssimas paisagens.

6.7.08

Em redor de uma glicínia





De súbito, ao desfazer a curva, uma glicínia debruçada no muro. Do outro lado da estrada, a capelinha rústica...
Fotos(C) Méon
Aldeia da Picanceira (conc. de Mafra).

5.7.08

AGUARELAS EM SANTA CRUZ


Atenção: entre 9 e 16 de Agosto, na Praia de Santa Cruz, Torres Vedras:
1º Encontro Internacional de Aguarela de Santa Cruz.
Ninguém me encomendou publicidade mas acho que é um acontecimento que merece ser divulgado.
Até porque tem como seu dinamizador central um artista que admiro: António Bártolo

Ver AQUI

INTERROGAÇÃO







(...)
«- Diz-me, Mestre: de que lado do portão está a minha liberdade?
- Depende do lado em que está o teu coração... »
(...)
Fotos (C): Méon

4.7.08


Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.



Maria do Rosário Pedreira
(Foto da net)


Às vezes é preciso ler palavras de desespero para entender toda a dimensão da vida. Sobretudo quando se está no lugar oposto do desespero...

3.7.08

Um velho livro dos anos 60...

... que continua fresco como no início: A PAIXÃO, de Almeida Faria:


«A manhã, quente e abafada, completamente estática, ardendo em clarabóias e, para fora da vila, ao longo da longa estrada, dói no olhar e na memória, clara como página sem nada.»

2.7.08

IMAGENS DO MEU OLHAR...LISBOA

Programa de ontem: ir a Lisboa tratar de papéis e passear pelas ruas com a curiosidade de um norueguês em férias...
Descer a Rua do Alecrim. «Ah! este é que é o tal Eça... diz aqui no guia que o original era em mármore mas estava sempre a ser vandalizado, partiam as mãos da mulher... levavam-nas... Por baixo até havia uma inscrição: "Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia"»



Rua do Ferragial. Águas furtadas ( furtadas? Por causa da seca?...) em ruínas. «Olha Niels, a próxima vez que cá viermos já isto não está cá... tira aí uma foto! It's so typical...»


Ah! As escadinhas de Lisboa!

«Beautiful! Look the staircases!!!! »


Ter a consciência de que seremos, talvez, a última geração a ver os "amarelos da carris" ...


Parar a respiração! Olhar! Olhar muito! De uma daquelas torres da Sé foi atirado à rua o bispo de Lisboa, em 1383 - o povo não lhe perdoou as simpatias por Castela...

Telhados de Lisboa! Uma nesga de Tejo, a outra banda...

Fotos (c) Méon