30.11.10

75 ANOS DE MORTE









(...)
Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto.
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

(...)

(Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos)

Fernando Pessoa: falecido em 30 de Novembro de 1935

26.11.10

CONSTRUÇÃO

Foto: Méon T.Vedras 2010

Gonçalo M. Tavares.
Este homem chega aos trinta anos e tem uma obra de muitos livros, fechada na gaveta. Depois  começa a publicar e não pára mais. Acumula prémios literáros, em Portugal e lá fora.
Lê-se com a curiosidade com que se visita um país desconhecido, embora com a sensação de que já tínhamos visto as pessoas e as paisagens. Lugar estranhamente familiar.

Um país onde também há poesia:

A Prova na poesia


Queres acreditar?
Nenhuma garantia basta.
Por exemplo: não há narrativas
que levem a prescindir
             da proximidade do mar.
O mar é material: exige a tua presença.
Também assim com a poesia.
Como um peregrino:
            vai rápido ver o verso.

Gonçalo M. Tavares

-----------------------------------------------------------

Do jornal SOL de 25/10/2008:

«O  Kafka português

No início deste mês, o jornal francês Fígaro saudou a publicação da tradução de Jerusalém apelidando Gonçalo M.Tavares de «Kafka português», ao mesmo tempo que atribuía nota máxima ao romance. É um exemplo, entre muitos, do entusiasmo geral em torno da obra do escritor nascido em Luanda, em 1970, que veio para Portugal com apenas três anos. Apesar de só ter começado a publicar aos 31, foi entre os 20 e os 30 que escreveu a maior parte da matéria bruta da obra que editou até agora. Com o segundo livro e o primeiro de um projecto a que veio a denominar de O Bairro - 0 Senhor Valéry - venceu o prémio Branquinho da Fonseca, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo jornal Expresso. Entretanto, já juntou a essa distinção o Prémio LER/Millenium BCP 2004, o Prémio José Saramago 2005, o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco e o prémio brasileiro Portugal Telecom 2007. Actualmente vive em Lisboa e é professor da cadeira Cultura e Pensamento Contemporâneo na Faculdade de Motricidade Humana. No mês de Novembro publica um novo livro pela Caminho, O Senhor Breton e a Entrevista, e uma reedição conjunta de Um Homem: Klaus Klump e A Máquina de Joseph Walser.»

23.11.10

PRÉMIO MELHOR ROMANCE ESTRANGEIRO EM FRANÇA 2010





Em Junho de 2008 fizemos AQUI referência a Gonçalo M. Tavares, que viera a Torres Vedras, à livraria LivroDoDia. Tinha ganho o Prémio Portugal Telecom de Literatura 2007.

Andámos de volta do seu Aprender a Rezar na Era da Técnica, um livro de uma estranha beleza.

Nada é óbvio nesta escrita, os pontos de referência estão noutro lado, afastados do comum, num estranho universo paralelo. Deslisa ao nosso lado mas os pontos de contacto são apenas visuais. Reconhecemos os objectos, as pessoas, as paisagens mas tudo isso vive noutro contexto, com nomes diferentes. Não é ficção científica ou quarta dimensão. É OUTRA dimensão. Ou talvez seja a nossa própria dimensão mas vista com uma lente de visão em profundidade. Ou em altura. Ou em grande zoom óptico, em picado e contra-picado...

Enrique Vila-Matas já avisava: "...de narrador de raça a génio de um imenso futuro. É um escritor que não vai continuar muito mais tempo despercebido nessa Europa"

A confirmação chega agora: Gonçalo M. Tavares acaba de ganhar em França o Prémio para O melhor Livro estrangeiro 2010. Ver AQUI.

22.11.10

REGRESSAR À ODE TRIUNFAL


Exististe demasiado, ó Pessoa!
Disseste tudo antes de tempo, ó Fernando! 
Que nos resta agora?
O que disseste foi intensamente dito. 
Podemos repetir-te lendo-te, 
reconhecer a profecia
o inevitável desenrolar do que predisseste.
A hora há-de chegar
triunfal ou não.

"(...)

Eh-lá grandes desastres de comboios!

Eh-lá desabamentos de galerias de minas!

Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!

Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,

Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,

Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,

A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,

E outro Sol no novo Horizonte!

(...)"
Da ODE TRIUNFAL, de Álvaro de Campos

Carolyn Carlson : Les couleurs de Maduraï



A dança de Carolyn Carson ilumina as trevas destes dias de chumbo...
Repousante, momentos mágicos para um final de dia...
Com um abraço ao meu amigo L T que me presenteou com esta partilha.

21.11.10

METER O NARIZ ONDE FUI CHAMADO



O convite era sugestivo: Ana Meireles - a criadora de histórias! - fazia uma exposição de quadros a óleo sobre acrílico, intitulada "GOSTO DE NARIZES", na Galeria / Loja Ponto & Vírgula. Impossível não meter o nariz!
A colecção é um mimo! Cada quadro tem uma história implícita, cabe-nos inventá-la. Meter lá o nariz. O que fazemos com gosto.
Pena não ter paredes disponíveis para trazer alguns daqueles deliciosos narizes...

O pequeno catálogo, feito pela Leonor Brilha, é uma jóinha de simplicidade e rigor.
Dele tirei este excerto: Delicioso!

«Gosto de Narizes!
Afinal têm uma história e eu sou louca por histórias. Os nossos, portugueses, carregam a história dos judeus e dos árabes e são, ou devem ser, um legado tão importante como o tom da pele, a cor dos olhos, a lâmpada mágica de um Senhor que se chamava Aladino, os tapetes voadores que não sendo de Arraiolos são fantásticos, etc. etc. Continuando Pinóquio, ele foi só o primeiro senhor de um grande nariz que me fascinou. Em adolescente Edmond de Rostand deu-me o seu Cyrano, que também tinha um nariz sinónimo de excesso, e por quem, talvez por isso mesmo, me apaixonei perdidamente.
Mais tarde, pelas palavras de Gogol conheci um oficial de São Petersburgo
a quem fugira o nariz e, há meses, o Alvaro de Magalhães também me
apresentou um Senhor muito senhor do seu nariz.
Por causa deles, dos narizes e dos seus autores, acabou de nascer uma
história que escrevi para a minha neta, sobre narizes, na secreta esperança
de que ela venha a estimar o seu e não desate a cortá-lo, a limá-lo,
a reduzi-lo a uma minúscula tromba o que não dará confiança a ninguém
que dela se aproxime.
Gosto de narizes!
Já falei sobre razões de tal queda evitando entrar por caminhos mais óbvios sobre a utilidade que eles têm em detectarem coisas ruins lançando-nos um "não me cheira" de alerta para a alma e para o coração, e ainda prontíssimos em avisos mais prosaicos como o "cheira-me a esturro" ou "já me chegou a mostarda ao nariz".
São ainda de capital importância para a nossa memória, que o diga quem por causa de um cheiro, a terra molhada, a pão acabado de cozer... não sente a infância ganhar corpo outra vez.»

Ana Meireles

19.11.10

PORTUGUESE RELATIONS EXTERNAS



 urso Putin da Sibéria
 Oby mulato da pradaria
mais a Mérkle alemoa 
e o Sarkoma de la francia

mim déjá viciado
spotter de ocasião
troco  bomba de napalm
by a foto de avião

de joelhos diplomatics
mais devant ou mais atrás,
nem pergunto nem replico,
pr’a mim OTAN to me faz!


M. do "Livro de la retraite"

18.11.10

TITANE Gilvan de Oliveira - TIRANA DA ROSA



Aos meus amigos que por aqui passam diariamente: desculpem a cegada do post anterior. Não resisti a meter ao ridículo esta gente que nos desgoverna...

Para limpar o ambiente, deixo aqui esta belíssima interpretação de uma canção tradicional que o "meu" grupo Gaudeamus anda a ensaiar.
Lindo de morrer...

TERAPIA



... para não chorar...

14.11.10

O LIVRO DOS ADVÉRBIOS PERDIDOS - 4


Foto Méon / Ruas de Torres Vedras
*
depressa
devagar
se  não chegas antes
nunca vais chegar

e nesse arremedo
do ante e depois
depressa destróis
o perdido enredo

não tenhas pressa
nesse divagar
no que te resta
morre devagar

Méon, LIVRO DOS ADVÉRBIOS PERDIDOS

ALDEIA-LAR

Ontem tive o privilégio de conhecer a Aldeia-Lar. ali para os lados da Sobreda (Caparica), concelho de Almada.


Um grupo de pessoas de bem - e inteligentes! - resolveu juntar-se numa Cooperativa de Habitação. Isto foi há 25 anos. Hoje têm um bairro onde vivem cerca de 50 famílias, com um Centro de Convívio equipado com ginásio, salão, bar, piscina, campo de jogos e espaços ajardinados.
As casas/vivendas são amplas, confortáveis, simples, sem luxos.

Ontem aceitei o convite para um convívio em que havia um porco para partilhar, entre outras animações. E foi uma bela tarde a entrar pelo serão.

Pessoas inteligentes, sim: a construção beneficiou de redução no IVA, entre outras vantagens.
Inteligentes, sim: em vez de se comportarem como 98% dos portugueses,que são incapazes de se governarem em condomínio e têm de recorrer a empresas de gestão às quais pagam bem, estes cooperantes governam-se a si próprios, têm órgãos sociais e entendem-se.

Obrigado, amigos da Aldeia-Lar! Que bela lição a vossa!

12.11.10

Sia - Soon We'll Be Found


Miguel Carvalho é um homem que não conheço mas a quem devo favores: trabalhos de grande qualidade na VISÃO e algumas sugestões BELÍSSIMAS para ver/ouvir. Embora não leve à paciência o seu clubismo portista - mas ninguém é perfeito, já se sabe.
Tenho o seu blogue nos meus favoritos.
"Isto" vi hoje no seu "Devida Comédia". Como não partilhar?

11.11.10

LIVRO DOS ADVÉRBIOS PERDIDOS - 3

Foto Méon - Nunca chegarei a saber...



“Só sei que nada sei” (Sócrates, filósofo grego)

agora não sei
mais logo também não

apenas sei
que nem agora
nem logo
saberei

sabedoria agora
é não saber o logo
do que não sei
nem saberei.

Nunca!

M. O Livro dos Advérbios Mal Parados

10.11.10

IMAGENS DO MEU OLHAR - O TÚMULO DO REI D. FERNANDO




Foto: António, (Olhares fotografia on line)


Há três semanas deixei apontamento de uma ida a Santarém, com imagens do claustro do Convento de S. Francisco. Lá prometi relembrar as páginas em que Almeida Garrett descreve a cena impressionante da visita ao túmulo do rei D. Fernando, ali sepultado em 1383.

É um pouco longa mas vale a pena. Verdadeiro clássico da nossa Literatura, Garrett tem uma prosa intensa, emotiva, directa à sensibilidade e ao intelecto do leitor.
Estas páginas são também um fulgurante libelo contra a bruteza de um país que consente fazer de uma admirável construção carregada de História um quartel militar.

Por último convém explicar:
o túmulo do rei D. Fernando, bem como o de sua mãe, D. Constança Manuel, está agora nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa. Veja-se o que diz a Wikipédia, consultada hoje:

« Já no século XIX, após a extinção do convento, é instalado na igreja e no claustro o Regimento de Cavalaria nº 4, que aqui permanecerá até meados do século XX. O antigo edifício conventual entra então num ciclo de degradação que o levaria até ao seu desolador estado actual. Esta situação, agravada por um incêndio em 1940, determinou a transladação dos túmulos de D. Fernando e de sua mãe, para o Museu Arqueológico do Convento do Carmo, em Lisboa e de D. Duarte de Menezes, para a Igreja de São João de Alporão, em Santarém, este último em 1928.

Após várias décadas fechado ao público, a Câmara Municipal de Santarém decide efectuar recuperações no monumento e abri-lo ao público em 24 de Julho de 2009, integrando-o no estatuto dos restantes monumentos da cidade. »(Wikipédia, 9 NOV 2010)

TEXTO DE ALMEIDA GARRETT
(Viagens na Minha Terra, cap. XLII, Livros de Bolso Europa América, Lisbos, s/d)

« Não chamem exagerado ao que vai escrito no fim do último capítulo; senti o que escrevi, senti muito mais do que escrevi. O que poderá haver é desacerto nas palavras, porque, em verdade, não sei explicar a impressão que me faz uma ruína neste estado. Desafinam-me os nervos, vibram-me numa discordância e dissonância insuportável. Queria ver antes estes altares expostos às chuvas e aos ventos do céu; que o sol os queimasse de dia; que à noite, à luz branca da Lua, ou ao tíbio reflexo das estrelas, piasse o mocho e sussur­rasse a coruja sobre seus arcos meio caídos.
Não me parecia profanado o templo assim, nem descaído de majestade o monumento. Podia ajoelhar-me no meio das pedras soltas, entre as ervas húmidas, e levantar o meu pen­samento a Deus, o meu coração à glória, à grandeza, o meu espírito às sublimes aspirações da idealidade. O material, o grosseiro, o pesado da vida não me vinham afligir aí.
Deus, a ideia grande do mundo; Deus, a Razão Eterna; Deus, o amor; Deus, a glória; Deus, a força, a poesia e a nobreza de alma — Deus está nas ruínas escalavradas do Coliseu, como nos zimbórios de bronze e mármore de S. Pedro.
Mas aqui!... nos pardieiros de um convento velho, con­sertado pelas Obras Públicas para servir de quartel de sol­dados, aqui não habita espírito nenhum.
Quero-me ir embora daqui!

E como? Sem ver o túmulo de el-rei Fernando? Não pode ser, é verdade. Onde está ele?
No coro alto. Subamos ao coro alto.
Oh! que não sei, de nojo, como o conte!
O belo jazigo do rei formoso e frívolo, tão dado às delí­cias do prazer como foi seu pai às austeridades da justiça, em que estado ele está!
Oh, nação de bárbaros! Oh, maldito povo de iconoclastas que é este!

O túmulo do segundo marido de D. Leonor Teles é um sarcófago de pedra branca, fina e friável, elegante e simples­mente cortada, com mais sobriedade de ornatos do que têm de ordinário os monumentos do século XV, mas de uma acabada escultura, casta e continente, como o não foi a vida do rei que aí encerraram depois de morto.
Percebem-se ainda vestígios das vivas cores em que foram induzidos os relevos da pedra branca: estilo bizantino de que não sei outro exemplar em Portugal. Este é — ou, antes, era — precioso.
Era; porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a um ponto incrível. Imaginou a estúpida cobiça destes alanos modernos que devia de estar ali dentro algum grande haver de riquezas encantadas; talvez cuidaram achar sobre a caveira do rei a coroa real marchetada de pérolas e rubis com que fosse enterrado; talvez pensaram encontrar, apertado ainda entre as secas falanges dos dedos mirrados, aquele globo de oiro maciço que lhes figura o rei de espadas do sujo baralho de sua tarimba, e que eles têm pela indispensável e infalível insígnia do supremo império; talvez supuseram que mesmo depois de morto um rei devia ser de oiro... Enfim, quem sabe o que eles cuidaram e pensaram? O que se sabe, porque se vê, é que quiseram abrir e arrombar o túmulo. Tentaram primeiro levantar a tampa; não puderam, tão solidamente está soldada a pedra de cima ao corpo ou caixão do jazigo, que o todo parece maciço e inconsútil. Mas, neste empenho, quebraram e estalaram os lavores finos dos cantos, os caireis delicados das orlas, e a campa não cedeu: parece chumbada pelo anjo dos últimos julgamentos com o selo tremendo que só se há-de quebrar no dia derradeiro do mundo.
A cobiça estólida dos soldados não se aterrou com a religião do sepulcro, nem lhe causou atrição, ao menos, esta resistência quase sobrenatural das pedras do monu­mento. Vê-se que trabalhou ali, de alavanca e de aríete, algum possante e ponderoso pé-de-cabra; mas que trabalhou em vão muito tempo.
Desenganaram-se enfim com a tampa, e resolveram atacar, mais brutalmente, mas com mais vantagem, as paredes do sarcófago, que justamente suspeitaram de menos espessas. Assim era; e conseguiram na parede da frente abrir um rombo grosseiro, por onde entra fácil um braço todo e pode explorar o interior do túmulo à vontade.

Assim o fiz eu, que meti o meu braço por essa abertura barrada, e achei terra, pó, alguns ossos de vértebras e duas caveiras, uma de homem, outra de criança.
Não me lembra que haja memória alguma de infante que aí fosse sepultado também, segundo faziam os antigos muitas vezes, que punham os cadáveres das crianças nos jazigos dos pais, dos parentes, até de meros amigos de suas famílias.
Tive, confesso, uma espécie de prazer maligno em ima­ginar a estúpida compridez de cara com que deviam de ficar os brutais profanadores quando achassem no túmulo do rei o que só têm os túmulos — de reis ou de mendigos: ossos, terra, cinza, nada!
Por mim, estive tentado a furtar a caveira de el-rei D. Fer­nando. Se acreditasse na frenologia, parece-me que não tinha resistido. Não creio na ciência, felizmente — neste caso — para a minha consciência. Também não sei o que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o «fraco rei que fez fraca a forte gente», não são relíquias, as suas, que se guardem.
Oh! e quem sabe? Esta profanação, este abandono, este desacato de túmulo de um rei, ali na sua terra predilecta - D. Fernando era santareno de afeição —, não será ele o juízo severo da posteridade, a vindicta pública dos séculos, que, tardia mas ultrajante, cai enfim sobre a memória repro­vada do mau príncipe e lhe desonra as cinzas, como já lhe desonrara o nome?
Quero acreditar que tal não podia suceder aos túmulos de D. Dinis, de D. Pedro I, dos dois Joanes I e II, de...
Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco aonde esteve? Que ainda é mais vergonhosa pergunta esta última.



Visível a abertura por onde Garrett terá metido o braço...


Em Portugal não há religião de nenhuma espécie. Até a sua falsa sombra, que é a hipocrisia, desapareceu. Ficou o materialismo estúpido, alvar, ignorante, devasso e disfar­çado, a fazer gala de sua hedionda nudez cínica no meio das ruínas profanadas de tudo o que elevava o espírito...
Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo, apesar desta paralisia que lhe pasma a vida da alma na mais nobre parte de seu corpo. Mas uma nação pequena, é impossível; há-de morrer.
Mais dez anos de barões e de regime da matéria, e infa­livelmente nos foge deste corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espírito.
Creio isto firmemente.
Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo está são: os corruptos somos nós, os que cuidamos saber e ignoramos tudo.
Nós, que somos a prosa vil da Nação, nós não entende­mos a poesia do povo; nós, que só compreendemos o tan­gível dos sentidos, nós somos estranhos às aspirações sublimes do senso íntimo que despreza as nossas teorias presunçosas, porque todas vêm de uma acanhada análise que procede, curta e mesquinha, dos dados materiais, insignificantes e imperfeitos; enquanto ele, aquele senso íntimo do povo, vem da Razão divina e procede da síntese transcendente, superior e inspirada pelas grandes e eternas verdades, que se não demons­tram porque se sentem.
E eu, que escrevo isto, serei eu demagogo? Não sou.
Serei fanático, jesuíta, hipócrita? Não sou.
Que sou eu então?
Quem não entender o que eu sou, não vale a pena que lho diga...
Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim deste capítulo, já tão secante, e prometo não reflectir nunca mais.
Jesus Cristo, que foi o modelo da paciência, da tolerância, o verdadeiro e único fundador da liberdade e da igualdade entre os homens, Jesus Cristo sofreu com resignação e humil­dade quantas injustiças, quantos insultos lhe fizeram a ele e à sua missão divina; perdoou ao matador, à adúltera, ao blasfemo, ao ímpio. Mas, quando viu os barões a agiotar dentro do templo, não se pôde conter: pegou num azorrague e zurziu-os sem dor.»


O que resta da fachada do Convento de S. Francisco, Santarém.
O edifício deixou de ser quartel militar e foi assolado por um incêndio em 1940.
O grande especialista do período gótico, prof Mário Chicó, considerou-o o mais representativo edifício gótico em Portugal depois do Mosteiro da Batalha.

7.11.10

Hopper: Morning-sun


Para o meu coração basta o teu peito,
para a tua liberdade as minhas asas.
Da minha boca chegará até ao céu
o que dormia sobre a tua alma.

És em ti a ilusão de cada dia.
Como o orvalho tu chegas às corolas.
Minas o horizonte com a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E ficas logo triste, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu acordei e às vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam na tua alma.

Pablo Neruda,
in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

5.11.10

SÓ FALTAVA MAIS ISTO...

Lindo! Veja-se AQUI.

Os de Bruxelas parece que não perceberam que os nossos "agricultores" precisavam de modernizar o seu parque de máquinas?

Moderna viatura de tracção em que o animal vai lá dentro.


Viatura necessária para ir levar o almoço ao marido,
que anda no campo desde o nascer do sol.


Visto mesmo agora na TSF on-line:

«Bruxelas reclama a Portugal devolução de 45 ME por irregularidades



Hoje às 14:47A Comissão Europeia reclamou, esta sexta-feira, a Portugal a devolução de mais de 45,7 milhões de euros de despesas da Política Agrícola Comum (PAC).


O executivo comunitário anunciou, esta sexta-feira, os reembolsos que os Estados-membros devem fazer por irregularidades nos pagamentos e verificação das despesas dos fundos agrícolas, e desta feita Portugal é o terceiro país europeu mais penalizado, a seguir à Grécia e à Roménia, ao ter de devolver para o orçamento comunitário 45,73 milhões de euros.


Em causa estão sobretudo «fragilidades no SIP-SIG (Sistema de Identificação Parcelar e Sistemas de Informação Geográfica), deficiências na análise de risco para controlos, insuficiência quantitativa e qualitativa dos controlos «in loco», aplicação incorrecta de sanções, inadequação das orientações e deficiências nos controlos administrativos, em relação à despesa das ajudas de superfície, incluindo medidas de desenvolvimento rural relacionadas com superfície», responsáveis pelo reembolso de mais de 40 milhões de euros.


Entre outros montantes, Portugal deve devolver 2,7 milhões de euros por «prémios animais» (pagamentos do prémio carne de ovino a agricultores) e 1,5 milhões de euros por deficiências em auditorias financeiras.


No total, Bruxelas indica que vai recuperar dos Estados-membros 578,5 milhões de euros, sendo a Grécia, de forma destacada, o país mais afectado, pois terá que devolver 315 milhões de euros, seguindo-se a Roménia (46,3 milhões) e Portugal (45,73 milhões).»

4.11.10

O ESSENCIAL







__________________________________________________________________
Rodrigo Chaves, cartoonista brasileiro



Alguém me enviou este texto. Usando o meu estatuto de "maduro", é claro que o subscrevo.


O Valioso Tempo dos Maduros
Mário de Andrade


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana;
que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!

3.11.10

"A PUTA AO BALCÃO"



Um poema tremendo, este. Prosaico? Só aparentemente. Um grande poema sobre a morte, a propósito de um amigo que morreu. Chamava-se Carlos e era o dono/animador de um bar célebre no Porto, o Púcaro's Bar, onde a poesia tinha lugar cativo e muitos cultores.
Encontrei-o AQUI, no blogue do Miguel Carvalho, um dos bons jornalistas da revista VISÃO.



a puta ao balcão

(in memoriam do Carlos Pinto, do Púcaro's Bar)

naquele bar à hora dos poemas
ela sentava-se ao balcão num banco alto
eu não a via mas via os seus estratagemas
e sentia no ar um estranho sobressalto

era sempre à quarta-feira aquele assédio
a puta fixava o olhar no outro lado do balcão
que bem se adivinhava naquela feição
da vítima de olhos presos e sem remédio

devia morrer-se de outra maneira
era um poema que nos ouvia ler a malvada
mas o silêncio era ferido por uma funesta gargalhada
e era ela a rir-se de nós e do josé gomes ferreira

e ela continuava naqueles modos a seduzi-lo
servia-se sem pagar dos tremoços e da sangria
batia também palmas no fim de cada poesia
e lançava o seu hálito de fumo a tudo aquilo

e ele o carlos mal saía do balcão
continuava preso àquele olhar satânico
dizia umas lérias pra afugentar o pânico
mas sentia-lhe as garras aduncas no pulmão

bem queria mandá-la pró raio que a parta
mas aquele olhar aquele bafo aqueles gadanhos
aquela presença invisível tinha poderes tamanhos
que ele só sabia respirá-la a cada quarta

até que no meio dos versos debaixo das arcadas
à meia-noite da última quarta-feira
ele sentiu que aquela quarta era mesmo a derradeira
e a puta confirmou-o com quatro gargalhadas

decidira a rameira aquela galdéria sem um pingo
de vergonha na cara que não tinha aquele ser suspeito
que o seu bafo letal produziria lentamente efeito
um mortífero efeito no imediato domingo

deixou-lhe em cima do balcão um passaporte
que não permite escusa nem permuta
e saiu impante e irresistível essa puta
cujo nome já sabem que é morte

dos versos a marafona agora não se importa
e o carlos seduzido por aquela miragem
no domingo partiu para a indeclinável viagem
e agora quem aos poemas e a mim abrirá a porta?

Anthero Monteiro
1 de Novembro 2010

2.11.10




Apetece uma flor uma janela
um candelabro um verso de Bilac
um cheiro de lilases uma estrela
uma fuga de Bach.

Apetece um licor um vinho velho
um chá da China cheio de perfume
apetece uma história de mistério
contada ao pé do lume.

Apetece uma tela em tons de roxo
um quadro de Giotto ou de Gauguin
uma carícia quente no pescoço
um bago de romã.

Apetece uma rima uma oração
apetece que chova faça vento
e haja um veneno um filtro uma poção
que embruxe na memória o coração
fugaz deste momento.

Rosa Lobato de Faria





1.11.10

LABIRINTOS DE UMA GAIVOTA

Ontem. oportunidade inesperada para ver A GAIVOTA (Tchékhov, encenação de Nuno Cardoso, Teatro Nacional S. João, espectáculo no Maria Matos em Lisboa).


Teatro, para mim, é encenação. Esta define o espectáculo, tanto (às vezes mais...) do que o próprio texto.
Esta encenação é soberba: um palco povoado de troncos de eucalipto, com o tablado inundado de água - os actores têm água pelos artelhos, alguns andam descalços, outros com sapatos normais. Andam a chapinhar. Espalham água quando correm. Molham-se, molham a roupa. Mas movem-se como se a água não estivesse lá. Arrastam cadeiras - arrastam a vida. O labirinto é aberto, mas não deixa de ser labirinto - como a vida. O jogo de luzes é outro elemento importante: mal damos por ele, não se impõe como às vezes acontece, quando os encenadores se deixam arrastar pelos efeitos pirotécnicos... Um piano em fundo sonoro, o ruído de um combóio que marcha na noite, a viagem.
Da gaivota vemos apenas um saco que a envolve. Estará ela lá dentro? Gaivota, a inocência perdida...

-------------------------------------------------------------------------------

Depois, na mesma volta, a informação, também inesperada, de que Luís Miguel Cintra estaria na Capela do Rato, à noite, para ler o Eclesiastes na íntegra. A opção dele: ler, apenas. Nenhum efeito de encenação, nem sequer olhar o público. E o texto ganhou uma ressonância magnífica na voz clara, calma e profunda deste que muitos  ( e eu também) consideram o melhor actor português vivo.


Uma das grandes vozes do nosso teatro...

«Em entrevista ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, Luís Miguel Cintra fala da leitura do Apocalipse, proferida no mesmo local em Junho deste ano, do Eclesiastes e do texto das Escrituras que gostava de voltar a interpretar.


Sobre o Apocalipse, último livro da Bíblia, o actor admite que “é um texto que coloca problemas a muita gente. A mim também. E assusta”.

Já em relação ao livro do Eclesiastes, do Antigo Testamento, Luís Miguel Cintra destaca as "questões que têm a ver com a exaltação dos valores humanos, da meditação sobre a morte, começando logo com aquela frase famosa «Vaidade das vaidades, tudo é vaidade»”. »Ver mais:
http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=82185

Mas o que mais me levou lá foi a vontade de rever aquele lugar mítico da resistência anti-fascista: a chamada Capela do Rato. Foi aqui que, nos idos dos início da década de 70 do século passado, um grupo dos chamados "católicos progressistas" - de que faziam parte Sophia de Mello B. Andersen e Helena Vaz da Silva, entre outros - se juntaram para reflectir sobre a guerra colonial, o que enfureceu o regime e levou ao fecho compulsivo da Capela, onde celebrava o célebre P. Alberto. Ver AQUI mais pormenores...
Não fiz parte desse grupo, até porque já então morava em Torres Vedras, mas tinha ido lá uma vez a uma celebração, ainda nos finais dos anos 60, quando aquele já era um lugar especial onde se vivia intensamente o aggiornamento da Igreja por influência de João XXIII e do Vaticano II, em contraste com a Igreja imobilista, retrógrada, comprometida com o salazarismo e controlada pelo Cardeal Cerejeira...





Porta exterior e aspecto interior da Capela do Rato, em Lisboa.
Para saber mais: ver AQUI.