12.2.13

A VELHICE DO PADRE ETERNO




Lembrei-me da voz de Guerra Junqueiro a vergastar a Igreja imperial:

Na barca de S. Pedro ex-santo, hoje banqueiro,
São tantos os caixões com bulas de cruzada,
E tanto o oiro em barra, as jóias, o dinheiro,
O navio é tão velho e a carga tão pesada;

Os anéis, os cetins, as púrpuras, as rendas,
As mitras d'oiro fino, os bentos, as imagens,
As pratas, os cristais, os vinhos, as of'rendas,
Os meninos de coro, os fâmulos, os pagens;

O maciço tropel de cónegos vermelhos,
De sacristas, bedéis, archeiros, missionários.

(...)

Esta orgia pagã, esta riqueza imensa
Atulham de tal forma a barca ultramontana,
É tão desenfreado o vento da descrença,
E o mar é tão revolto, a carga é tão mundana;

Que a barca do Senhor, outrora dirigida
Por doze galileus descalços, quase nus,
Ela que atravessa o grande mar da vida
Tendo só por farol os olhos de Jesus;

(...)

Hoje ao peso cruel deste deboche hediondo
Essa barca da Igreja, esse colosso antigo
Soçobrará, ó Deus, com pavoroso estrondo
(...)


Ontem, ao ver o velho e decrépito Papa a discursar em Latim - língua morta - ouvi de novo o clamor de Junqueiro. Ali estava o homem, senhor do maior Império do mundo, reduzido às mazelas da artrite anunciando que não aguentava mais, perante a Corte de nédios cardeais vestidos de vermelho.

Aquele é o estranho mundo de anacrónicos anciãos e de jovens presbíteros com ar de eunucos onde não se vêem mulheres - a não ser algumas raras freiras sexagenárias como criadas de quarto. Estranho e sinistro mundo onde o Amor é uma abstracção de encíclicas que só os clérigos lêem e a pedofilia é um pecado que não merece castigo, apenas a divina misericórdia...
Aquele é o antro magnífico da Arte e dos túmulos sumptuosos, dos arminhos e das tiaras bordadas a ouro. O lugar onde não tem lugar o sacerdócio feminino e onde os leigos são metecos em sociedade de patrícios e aristocratas do altar. Onde os padres que tiveram a coragem de renunciar ao celibato foram implacavelmente proscritos como rebeldes.
Onde o clamor do Terceiro-Mundo pedindo justiça e invocando a Teologia libertadora foi calado pela autoridade de um homem revestido do inaudito dom da infalibilidade.

E volto à denúncia implacável de Junqueiro, fustigando os vendilhões do Templo:

 Cultos, religiões, bíblias, dogmas assombros,
São como a cinza vã que sepultou Pompeia.
Exumemos a fé desse montão de escombros, 
Desentulhemos Deus dessa aluvião de areia.


7 comentários:

lis disse...

Oi Joaquim
Como desconheço e não sendo especialista no assunto,posso errar mais que acertar, sem compromisso rs
A diferença entre o cético e o religioso está exatamente na imaginação_ um admite ser só imaginação e outro acredita como algo verdadeiro,portanto apesar de 'Guerra Junqueiro' continuo com a Fé num Deus supremo_ e crendo que 'toda língua vai confessar e todo joelho se dobrará' -diante D'Ele.
E poucos prevalecerão...
A renúncia do Papa é mais um capítulo _ tomara muitos outros 'deuses'caiam!
abraços abraços

Joaquim Moedas Duarte disse...

Obrigado pela tua visita, Lis.

Recordo que G. Junqueiro foi um homem profundamente crente, um homem que tinha fé em Deus - como deixou bem expresso no início do seu livro A VELHICE DO PADRE ETERNO.
O que ele não suportava - e denunciava ferozmente - era o comportamento da classe eclesiástica, a utilização de Cristo como forma de sacar dinheiro.
Eu, pessoalmente, sendo agnóstico, partilho integralmente a postura crítica quanto ao clero. Acho que são funcionários de Deus e estão muito desfasados do homem comum. Não entendem a sexualidade humana e arrogam-se o direito de opinar sobre ela. Enchem a boca de louvores à Virgem e excluem as mulheres da hierarquia eclesiástica. Defendem a família e erigem o celibato como patamar superior da virtude. Etc....

É a minha opinião... respeito quem não a partilhe.

des-encantos disse...

oi Moedas,
gostei desta prosa 'elaborada e pensada' sim sr. não sou propriamente agnostico-ateu ..uma coisa dessas- mas perfilho o que escreveste neste teu 'escrito-post'. Não me recordava que a Lis também «passava» por aqui.

Joaquim Moedas Duarte disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joaquim Moedas Duarte disse...


Do meu amigo LFR recebi por mail este comentário. Como ele não sabe usar a caixa de comentários - como já mo disse mais de uma vez - decidi ser eu a pô-lo aqui.
É um bom contributo para o debate de ideias.

«Meu Caro Amigo

Ser uma voz crítica contra a face anquilosada das instituições (qualquer instituição, por mais prestigiada e representativa) permite-nos criar distância para poder ver melhor. Porque a crítica supõe um exercício de decantação e, como tal, liberta de alguns apegos atávicos. Mas é preciso pensar a crítica e os críticos enquanto emanações de um contexto. Então importa avaliar o contexto em que a crítica é produzida.

Assim, a figura de Guerra Junqueiro e a sua acerada crítica deve ser entendida dentro de um quadro sócio-histórico, atentos às transformações mentais e culturais.

Só para lembrar e muito sucintamente:
1. Finis Patriae e Pátria ? livros escritos no contexto do conflito com a Inglaterra, por via do mapa cor-de-rosa ? contribuíram poderosamente para o descrédito das instituições monárquicas.
2. A Velhice do Padre Eterno (1885), surgirá na sequência do Vaticano I (1869-1870) em que é proclamado o dogma da infalibilidade papal. Este Concílio, ao defender os fundamentos da fé católica, condenou os erros do racionalismo, do materialismo e do ateísmo.
A infalibilidade do magistério papal vem contida na constituição Pastor Aeternus. E afirma que a autoridade do Papa, definida em questões de fé e de moral, goza de especial assistência do Espírito Santo. Não será o título acima citado de G.J. uma réplica sibilina ao daquela constituição do Vaticano I?
Na verdade, a infalibilidade papal colocou problemas posteriores insanáveis, nomeadamente uma pequena cisão com o surgimento da ainda conhecida igreja «velho-católica», cuja sede em Portugal é no Gradil (Mafra).

Eu sei que o autor nunca pôs em causa Deus nem a fé, talvez herança do curso de teologia que frequentou na Universidade de Coimbra.
Mas não deixou de ser um verdadeiro ícone do anticlericalismo português. No meu ponto de vista, não pelas suas ideias virem temperadas pelo ideal socialista e republicano nascente, mas por um temperamento ressabiado e por uma escrita impregnada de grande simplicidade e poder de comunicação. Trata-se de um poeta importante, mas panfletário, cuja poesia ajudou criar o ambiente revolucionário que conduziu à implantação da República.

Enfim, e o email vai longo, a tua visão da Igreja é de alguém que vê do lado de fora (tu o dizes: sou agnóstico), e não está atento ou quer ignorar (parece-me, e desculpa meter a foice em seara alheia) às modulações da história.
Enquanto instituição que atravessa a história, apesar das imensas vicissitudes (cismas, inquisição, papado; recentemente, a pedofilia, etc) a igreja é uma realidade humana, uma estrutura temporal ? como tal, merece a nossa crítica, vigilância, discordância, porque é essa atitude que reforça o sentido de cada adesão. Por outro lado (e para quem tem Fé) a Igreja é um sinal de Deus, um sacramento da sua presença no meio dos homens.
A este propósito não vou adiantar conversa. Só para dizer que é aqui que está o busílis. Como captar nesta face visível, tormentosa e merecedora de toda a crítica a outra realidade invisível. Mas isso é tema para uma outra e mais prolongada conversa.
Enfim, não estou de acordo com a tua visão exacerbada e desenquadrada, nem tomo G.J. como meu poeta, por duas razões: pelo seu modo pateticamente crítico (apesar de o procurar entender no seu contexto) e pela sua estilística.

Um abraço amigo
Quinta-feira de Cinzas, 14 de Fevereiro de 2013»

Joaquim Moedas Duarte disse...


Naturalmente, senti necessidade de responder:

«Caríssimo

Respeito a tua Fé e o modo como a vives.
Por mim, estou do lado de fora, como dizes, e sinto-me bem.

Sou, de facto, anti-clerical e abertamente crítico da instituição Igreja cujo funcionamento se apoia na classe sacerdotal, abusiva e anacrónicamente monopolizada pelos homens contra as mulheres. Como agnóstico até poderia ser indiferente a estas questões, remetendo-as para o foro das consciências individuais. Mas a existência de um Estado como o Vaticano - poder temporal! - e a presença institucional da Igreja na nossa sociedade com o peso social que tem, obrigam-me a tomar posição. Porque o modo de ser/estar da Igreja Católica Apostólica Romana afronta os princípios em que acredito: primado da consciência individual, democraticidade da vida pública, moral baseada na sã convivência humana e no respeito pela liberdade de cada um.

Vejo a ICAR como instituição anacrónica baseada na manipulação do medo da morte e na mediação da relação dos homens com a Transcendência.
Veja-se: o grande pulo civilizacional dos Nórdicos a partir do séc. XVI foi a emancipação da ditadura espiritual e material da Roma papal. Ao contrário dos povos do Sul, subjugados pela sinistra doutrinação de Trento que desembocou na (Santa) Inquisição.


Sim, tenho presentes todos os meus amigos padres e os meus amigos crentes que, abnegadamente, aliviam o sofrimento humano através da solidariedade activa. Respeito e admiro a sua acção.
Mas, não indo ao ponto de incitar à destruição da INFAME - como queria Voltaire e o nosso Afonso Costa - não me furto à necessidade de denunciar a deletéria promiscuidade entre poder espiritual e poder temporal que a ICAR prossegue há séculos - disso fazendo meio de subsistência e de domínio.

É giro, isto, LF!

Abraço»

J Moedas Duarte

José Augusto Nozes Pires disse...

Agiste muito bem trazendo à liça este assunto. O consenso acobardado à volta desta Igreja que herdou o Império Romano, é um charco. Perdida a guerra sanguinária pela manutenção do poder político nas monarquias, perdida a ditadura em 25 de Abril de 74, fomentou a contrarevolução bombista, aderiu depois tranquilamente ao reerguer das oligarquias. A sua caridadezinha não nos deve iludir sobre o poder financeiro de que gozam. A única posição que faz sentido é crer em Deus sem obedecer a padres, rabis e ayatholas. Quanto aos crentes crédulos (por medo)não há rei sem súbditos.