4.1.13

VELHOS ARTESÃOS DO ALENTEJO




Chama-se Isidro Manuel Verdasca, tem 90 anos. Faz miniaturas da vida quotidiana no mundo rural que foi o dele durante muitos anos. Veio morar para Évora e passou a usar as memórias como matéria-prima que junta à cortiça.
Para espairecer das manufacturas, toca modinhas num xilofone de garrafas, feito por ele.
Comprei-lhe uma recordação mas, entretido com as fotografias,  esqueci-me da carteira em cima da bancada. Já ia afastado, ouvi um chamamento: "Ó senhor! Ó senhor!" - Era mestre Isidro, homem honrado, que vinha a correr, com a carteira na mão.
Amanhã mando-lhe as fotografias pelo correio.

.  .  .  .  .







Nunca vi tanto chocalho junto! Foi preciso vir à antiga oficina do Sr. João Chibeles Penetra, "industrial chocalheiro", na vila de Alcáçovas.
São cerca de 3 000! Todos parecidos mas todos diferentes: no tamanho, na espessura da chapa, nas marcas gravadas, nas cintas e fivelas, nos "cágados" de madeira (antepassados das fivelas), na côr, no ano de fabrico. Só mestre João percebe a ciência dos chocalhos. Passou muitas horas no banco ou na forja, calejou as mãos nas tesouras de metal, nas sovelas, nas grosas, nas serras.
Vai nos 80 e muitos, mas anda por ali muito direito, a explicar o que só ele sabe. Não gosta que os visitantes toquem nos chocalhos, "para tocar têm de estar pendurados nas reses, para isso serviam", afugentavam os animais predadores das capoeiras- raposas, saca-rabos, doninhas - e ajudavam a localizar os que se afastavam dos rebanhos ou das manadas. Continua a explicar:
"Hoje já pouco se usam os chocalhos, as propriedades estão todas aramadas e o pastoreio é muito diferente."

Quando o sr. João já não puder abrir a porta do museu, alguém há-de tratar disso - talvez o filho, bancário na vila, apreciador da obra cultural do pai, valiosa pela preservação das memórias de outros tempos. Há que renovar a apresentação, enriquecendo-a com depoimentos gravados em som e imagem, para que não se perca a História da vida rural no Alentejo.

Sr. João, vamos tirar um boneco para a posteridade?



fotos(C) J Moedas Duarte

1 comentário:

Joaquim Cosme disse...

Eu ainda sou do tempo do chocalhos.
Oxalá não se percam estes pois são autênticas peças de museu e ajudam os vindouros a conhecer as vidas passadas.
Joaquim Cosme