1.9.09

ISTO DIGO EU... (5)



A propósito do post anterior, um leitor anónimo deixou este comentário ( só não publico os que considero ofensivos ou mal-educados...) :


"O problema dos rachados, meu caro ex-camarada, não é o de se afastarem do partido, mas o de se entregarem a outros, onde têm melhor pasto para a sua ambição e vaidade."


Acho muito elucidativo porque revela a mentalidade tipicamente intolerante e anti-democrática da maioria dos militantes comunistas. Intolerante porque, se aceita o meu afastamento do PCP, já não aceitará o facto de eu eventualmente me "entregar a outros". Isso fará de mim um "rachado", termo acintoso e, até, ofensivo.
Anti-democrático porque não admite o pluralismo partidário, porque considera que só o PCP tem a verdade e os outros são apenas veículos de ambição e vaidade.


O que daqui resulta é que o PCP se torna religião - muitos vivem a militância como tal -, com dogmas, hierarquia, catecismo, rituais, hinos, literatura beata e ex-comunhões. Um "rachado" é um ex-comungado. E tal como na Idade Média a vida de um ex-comungado se tornava num inferno - com proibições, enxovalhos e descriminações de toda a ordem até à destruição total - nos anos 20 e 30 os dissidentes comunistas da URSS eram eliminados depois de processos em tudo semelhantes aos medievais. Se hoje a Igreja já não faz o mesmo é porque entretanto houve uma longa luta dos povos pela libertação, que culminou na Revolução Francesa. Do lado comunista foi a implosão da URSS nos anos 80 que levou à secundarização dos PC's nas sociedades ocidentais e à impossibilidade de eliminar fisicamente os "infiéis". Mas, tanto de um lado como doutro, é ainda muito forte a mentalidade persecutória. Pudessem eles...


Fui educado numa família profundamente cristã/católica, frequentei o Seminário dos Olivais e afastei-me da prática religiosa porque me tornei agnóstico. Tendo crescido numa terra de fortes tradições de luta anti-fascista, foi natural a minha adesão ao PCP na idade adulta. Nele militei, tentando imitar a generosidade de quase todos quantos conheci naquele partido, gente convicta, abnegada. Mas acabei por sair em 1985, aquando da candidatura de Maria de Lurdes Pintasilgo à Presidência da República, que o PCP hostilizou. Comecei a sentir-me mal com a incapacidade do PCP para lidar com os outros partidos que: ou são de direita ou são de radicais que fazem o jogo da direita. Os partidos aceitáveis são os que se assumem como satélites do PCP. Caso dos Verdes a cujo nascimento assisti e que foi "cozinhado" dentro do PCP...


Provavelmente já alguém fez um estudo comparativo entre o extremismo católico e o seu congénere comunista. Gostava de o ler. Para confrontar com a minha experiência de vida.
Guardo para outro dia mais alguns dizeres sobre estas questões.Nomeadamente sobre a contradição entre a bondade individual da grande maioria dos militantes católicos e comunistas e o poder sinistro das organizações a que pertencem.
Por hoje deixo apenas uma frase que retirei de um catecismo católico e que define o que é o pior pecado que o Homem pode cometer, o chamado "pecado contra o Espírito Santo":


"Negar a verdade conhecida como tal, quando o pecador de tal modo se entrega conscientemente à mentira a ponto de acabar acreditando na mentira como verdade, e, por isso, recusa até a evidência da verdade."


Nos processos estalinianos os condenados tinham exactamente este comportamento: negavam a verdade do Partido, entregavam-se à mentira de outras posições partidárias, acreditando nelas e negando a evidência de que só o Partido tinha posições políticas correctas. E antes que levassem outros a acreditar nas suas mentiras, eram condenados à morte e eliminados. Aos milhares. Em nome da verdade.
Era o que me aconteceria provavelmente, para castigar a minha ambição e a minha vaidade...

Isto digo eu... não sei...

4 comentários:

Venerando Aspra de Matos disse...

Caro amigo
Estou solidário contigo
O que muitos desses "ferro em brasa" não tomaram ainda conciência é que o stalinismo matou mais comunistas que o próprio Hitler.
Um abraço
Venerando Matos

Pereira disse...

Estive agora a ler "Isto digo eu" das últimas semanas e posso afirmar que estamos em sintonia, em diversos aspectos.
Quanto ao texto do Proust sobre a leitura, fez-me ir buscar um excerto do meu livro que se encontra no prelo "Memórias de uma Professora" (que inclui a carta aberta que o Joaquim escreveu aos colegas, no início do ano lectivo), excerto esse que gostaria de partilhar:
..." Adorava ler, mas os livros eram escassos e o dinheiro para os comprar mais escasso ainda. Não me lembro bem de quais os primeiros que li, mas recordo que as obras de Júlio Dinis estavam entre eles. Lembro-me também de ter descoberto no sótão umas velhas revistas literárias, dos finais do século dezanove, que continham textos sobre figuras em destaque na época, poemas, charadas linguísticas e outros artigos mais ou menos interessantes, que eu devorei com avidez e a cuja leitura voltava, sempre que não tinha mais nada para ler. Não admira, pois, que, ainda hoje, saiba de cor alguns versos que nelas aprendi. A revista, que era semanal, intitulava-se “O Recreio”, e, apesar de algumas páginas roídas pelos ratos, ainda tenho em meu poder alguns exemplares, publicados em 1898. Creio que foi também por essa época que surgiram as bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Era com ansiedade que eu aguardava o dia da sua chegada, e só lamentava o facto de haver limite para o número de obras a requisitar. Nas férias de Verão, chegava a passar dias inteiros a ler – aventuras dos Cinco, dos Sete, romances, revistas, literatura de cordel, enfim, tudo quanto conseguia arranjar. Quanto à escrita, também comecei muito cedo a gostar de escrever pequenos textos – contos, poemas, reflexões, um diário e cartas a alguns amigos que moravam na capital e passavam férias na minha aldeia, dos quais recordo, principalmente, a Babá, o Ricardo, o Rogério e o Chico Zé..."

Pereira disse...

Há pouco, esqueci-me de assinar. Peço desculpa.
Isabel Pereira Rosa

José Augusto Nozes Pires disse...

1.Quanto ao período do estalinismo é chover no molhado. O período que se lhe seguiu merecia mais e melhores estudos.Há um Livro Negro do Comunismo e há um Livro Negro do capitalismo.
2.A falência do regime da URSS não falsifica uma filosofia, ainda que a prática nos ponha de sobreaviso. Não abandonei a religião por causa da igreja e dos padres, mas porque deixei de acreditar em deus.
3.Qualquer cidadão é livre de entrar e sair de uma associação de homens livres. Todos os anátemas são repugnantes, de uns e de outros.
4.Sejamos solidários em causas comuns e saibamos quais são os nossos reais inimigos comuns.
5.O PCP tem telhados de vidro, mas quem não os tem? «Quem nunca pecou que atire a primeira pedra», eis o que de mais belo há na Bíblia.
Abraço