11.2.11

NÓS E OS FARAÓS



Não ando alheado do mundo político, apesar de raramente falar disso aqui.
O Egito é um acontecimento a ter em conta, claro. O povo veio para a rua e obrigou a uma mudança. 
Se eu tivesse que dar uma opinião diria:

1 - A situação que lá se vivia era insustentável. Os turistas visitavam os templos e monumentos mas não se aproximavam do povo, mantido à distância por um cordão policial de segurança. Estive lá em 2005 como turista e vi como era. Percebia-se bem que, fora dos hoteis de luxo, imperava a miséria. E que os egípcios nos olhavam de longe com inveja.

2 - O contacto com o  modo de via ocidental através da televisão e da internet tornou ainda mais insuportável o quotidiano do povo. O desemprego massivo da juventude fez o resto, a partir do detonador da Tunísia.

O que virá agora? Acredito que os egípcios não vão correr com Mubarak para se irem meter na prisão religiosa dos extremistas islâmicos. Era necessário mudar e isso está feito. Há contradições terríveis, sim, caso dos militares - um exército de um milhão! - que vivem dos dólares americanos e da Irmandade Muçulmana com raízes culturais opostas aos costumes ocidentais. Mas quero acreditar que eles encontrarão um menor denominador comum para avançarem.

E NÓS POR CÁ?

Parece-me que a nossa esquerda está mais mumificada do que os faraós egípcios.
O sonho do PCP e BE é ver "o povo e os trabalhadores" ocuparem o Rossio e só de lá sairem quando o Governo cair. Enquanto tal não acontece, fingem jogar as regras democráticas. Mas vão para o Parlamento com a postura revolucionária de quem fala em nome do povo e gostaria de aniquilar os adversários. Agem e falam como se tivessem uma expressão eleitoral esmagadora. Não criam qualquer margem de diálogo, têm uma postura de enfrentamento permanente. Vivem politicamente isolados mas na ilusão de que são a imensa maioria do povo, cujas aspirações só eles interpretam.

Desconhecem que em democracia a política se faz com negociações, pequenos passos, alianças, entendimentos, compromissos. E respeito pelos adversários. Se estão dentro de um Parlamento é assim que deveriam agir. Mas fazem o contrário, chegando a becos sem saída como é agora o caso das moções de censura. O jogo PCP/BE deixou toda a gente perplexa porque não se vê que soluções políticas propõem, que alterações se dariam no panorama político nacional.
Claro, o que pretendem é agitar as águas, sempre na esperança de que amanhã o povo se levante finalmente e venha ocupar as ruas e as praças. Mas sem criarem condições para que, na vaga hipótese disso acontecer, seja posível formar um Governo. 

Sou e sinto-me de esquerda, o que significa que priveligio a solidariedade colectiva, o papel regulador do Estado e um Estado ao serviço do povo e não da minoria que detém o poder financeiro. E vejo com grande preocupação que os nossos líderes da esquerda não sabem viver com a democracia e cultivam a ambiguidade de jogarem à democracia mas sonhando e agindo como se vivessem em revolução.
Depois ficam muito admirados com os fracos resultados das presidenciais, chegando ao ponto de lamentarem "É o povo que temos...".

Entretanto Portugal vive de balões de oxigénio financeiro vindos do exterior.A economia estagnada não cria riqueza que assegure a manutenção do Estado Social. Os centros de decisão mais importantes estão todos lá fora. Mas a nossa esquerda não sabe lidar com isto...

1 comentário:

manuela disse...

Gosto. É a análise do 'gajo d'esquerda' que conheci/ço (parece me): uma análise serena, global e adulta. Bjo amigo