22.12.10

UMA HISTÓRIA ANTIGA

Matança dos Inocentes, Nôtre Dame, Paris


Estava no primeiro ano de Faculdade e precisei de um emprego para equilibrar o orçamento. Tornei-me angariador de colégios particulares para um fotógrafo que depois ia tirar fotos aos alunos e que eu, no fim de processo, visitava em casa, a mostrar as provas para encomenda.
Conheci gente interessante, entrei em muitas casas, apercebi-me das diferenças de classes e rendimentos.
Num colégio da Amadora fui recebido pelo Director. Mais do que ouvir-me, ele queria falar com alguém. Entreteve-me mais de uma hora. Conversa fascinante, de resto. Ele era inimigo feroz de Salazar e não se preocupou em pensar quem seria eu, podia até ser delator da PIDE...
Pela primeira vez eu estava a ouvir um verdadeiro oposicionista. Descreveu Salazar como um velho hipócrita, um sacrista sem escrúpulos na tacanhez política de um ditadura paternalista e impiedosa. E como estivéssemos em época natalícia, acabou a nossa conversa declamando a História Antiga, de Miguel Torga, e que eu, maravilhado, ouvi pela primeira vez.
- Sabe quem é este rei da Judeia? - perguntou-me ele.  - Não, não é o Herodes! É o velho de Santa Comba Dão! É o Salazar! O homem que não gosta de crianças!...

Recordo hoje esse célebre poema de Torga. Boas Festas, meus amigos!
E evoco esse velho anti-fascista do colégio Alexandre Herculano na Amadora, em 1969, que me escolheu para confidente da sua revolta.



HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação. 

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
Miguel Torga
Antologia Poética
Coimbra, Ed. do Autor, 1981

4 comentários:

Lilá(s) disse...

♫♫♫ Feliz Natal!!!

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BEIJINHOS

Méon, disse...

Obrigado, Lilá(s)!
Retribuo, para ti e para os teus!
Bj

Anónimo disse...

Adoro esta História do Miguel Torga!
Boas Festas

samuel disse...

É muito bom!
Bom Natal!

Abraço.