11.1.11

PRESIDENCIAIS, CÁ PARA MIM...



Vou falar das próximas eleições. Desculpem estes desabafos, se não interessarem, passem adiante.

A última vez em que me envolvi activamente numa campanha eleitoral foi nas Presidenciais de 1986, em prol da candidatura de Maria de Lurdes Pintasilgo. Foi aí que se deu a minha clivagem com o PCP, no qual entrara em 1975, e que abandonei definitivamente.
Olho para os candidatos em presença nestas eleições de agora e não me revejo em nenhum. Para mim o candidato ideal seria uma mulher da área da Cultura ou da Ciência, sem ligações directas a nenhum Partido. Na falta de uma mulher, um homem dessas áreas.
Por isso acolhi bem a candidatura de Fernando Nobre, quando ela apareceu em Fevereiro de 2010. Mas depressa me desiludi. F. Nobre é monárquico assumido, como demonstrei num post escrito na altura ( ver AQUI ). Para mim não faz sentido a sua candidatura, como não faria sentido um republicano propor-se para os Corpos Sociais de uma agremiação monárquica como é o Instituto de Democracia Portuguesa de que F Nobre é Presidente da Assembleia Geral e de que o Presidente de Honra é D. Duarte Nuno.

Posto isto, que outros candidatos me propõem?

Cavaco? Sou anti, por muitos motivos, que me dispenso de enumerar. Em resumo: não gosto do estilo, não gostei dele como Primeiro Ministro, não gosto da forma como enfrenta os problemas ( caso das escutas, caso dos Açores, agora o caso BPN).

Alegre? Admirei o poeta, não gosto da petulância e da pesporrência com que anda na política. Incapaz de pegar no milhão de votos das anteriores Presidenciais e fazer um movimento cívico autónomo, agora está entalado entre duas forças políticas antagónicas e tornou-se um caso patético, ninguém sabe onde está politicamente. De fugir.

Lopes? Um homem sério, coerente, mas que vive noutro mundo. Basta imaginar o que seria vê-lo na Presidência. O seu projecto político é o do PCP, que aponta para a albanização do país: saída do Euro, saída da União Europeia, auto-suficiência económica através da reconstituição dos nossos meios produtivos. A utopia em estado cataléptico.

Defensor de M? Poderia ser um bom candidato se... não estivesse imerso até ao pescoço na situação política. Deputado do PS, ex- Presidente de Câmara, defensor dessa outra utopia patética que é a Regionalização.

Resta o Coelho! Uma espécie de Tiririca português - sem a Florentina de Jesus. "Coelho ao poder" - proclama ele. Um puro, sem medo, ingénuo, bacano, teso.  A reencarnação do "Manuelinho" do tempo dos Filipes. Utopia, sim, mas sem disfarces. Por isso, se eu votar em alguém, é nele, ficam já a saber.

Subscrevo o que diz dele a jornalista Catarina Carvalho, do JN:

"(...) José Manuel Coelho é o candidato perfeito, pelo menos para jornalistas que ainda não se esqueceram que uma das sua principais funções é satisfazer a curiosidade do público. Um desconhecido, um homem do povo, estucador de profissão, ardina nas horas vagas, que se candidata a presidente, um deputado madeirense de um partido ultraperiférico que resolve saltar para o panorama nacional (coisa que o próprio Jardim nunca teve coragem de fazer), um ex-comunista que se 'aggiornou' e não tem medo de dizer que o regime que defendeu matou muitos milhões (coisa que o Partido Comunista Português nunca concedeu), um homem que fala sem as habituais papas que a concorrência coloca nas línguas dos candidatos que pretendem, ainda, fazer carreira na política nacional. (...)

"Papagueamos sobre a ausência de interesse da política e dos políticos, culpamo-nos pela falta de relação entre o povo e a classe dirigente, e quando irrompe um homem que não podia ser mais autêntico, até na sua honestidade de dizer que não está aqui para ganhar, o que lhe fazemos? Ignoramo-lo? Não. Pior que isso. Tratamo-lo como se fosse um candidato sério, igual aos outros. "

Jornalistas com créditos firmados como entrevistadores, como Judite de Sousa ou Henrique Garcia, fazem-lhe perguntas tão sérias como as dos outros candidatos, como se José Manuel Coelho precisasse do escrutínio democrático de qualquer candidato que tenha possibilidades de chegar a presidente. Nas duas entrevistas que deu, à RTP e TVI, pretenderam fazê-lo cair em contradições ou em soudbytes políticos. Quem precisa de soudbytes quando tem aquele slogan de campanha? Reportagens sobre reportagens descrevem as suas acções de campanha sem a mínima ironia...

José Manuel Coelho é o único fenómeno interessante destas eleições e a mim, que conjugo a dupla condição de jornalista e público, o que me interessa é a sua história, a história de um homem do povo que foi do PCP numa pequena ilha (antes e depois do 25 de Abril), que era o maior vendedor do "Avante" em Portugal, foi à União Soviética em 1981 a convite do "Pravda" e não gostou do que viu, um estucador com consciência política, com espírito crítico suficiente para ser anti-Jardim na hegemónica ilha da Madeira, e que, sabendo que será sempre minoritário, opta pela loucura como forma de oposição, uma loucura tão grande que o leva até à candidatura nacional à Presidência da República. Deste homem, não quero mais opiniões. Os factos chegam-me. Ou terá o sistema político e o seu espelho, o jornalístico, já esquecido de que matéria é feita a vida real? "

Nem mais!

Por isso, no dia 23, ou voto no "Coelho ao poleiro" ou faço duas diagonais sobre o boletim, de canto a canto, para afirmar o meu desencanto.

1 comentário:

AngCarvalho disse...

Juro que fiquei chocada quando li que o Nobre é monárquico...
E realmente o José Manuel Coelho é o candidato perfeito (: