20.5.08

O MARINHEIRO



(...)


- Eu já não sabia em que pensava... No passado dos outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho...Porque é que correria, e porque é que não correria mais longe, ou mais perto?... Há alguma razão para qualquer coisa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?...


- As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios que habitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus... Não há vento que mova as chamas das velas, e olhai, elas movem-se... Para onde se inclinam elas?... Que pena se alguém pudesse responder!... Sinto-me desejosa de ouvir músicas bárbaras que devem agora estar tocando em palácios de outros continentes... É sempre longe na minha alma... Talvez porque, em criança, corri atrás das ondas à beira-mar. Levei a vida pela mão entre rochedos, mará-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estátua de anjo para que nunca mais ninguém olhasse...


- As vossas frases lembram-me a minha alma...


(...)


Teatro Municipal de Almada, 17 de Maio. A peça de Fernando Pessoa - O MARINHEIRO - foi uma viagem inquietante aos nossos abismos. Teatro poético, extático, carregado de simbolismo. Cada homem é um marinheiro que não conhece o antes nem o depois da viagem.


A vida humana é um espaço de palavras entre dois infinitos silêncios: o de quando ainda não existimos; o de quando deixamos de existir. Por isso Fernado Pessoa fez da sua vida um monumento de palavras entre esses dois silêncios.


Vejo O MARINHEIRO como a afirmação da palavra /vida face ao silêncio / morte. Silêncio representado pela figura de branco vestida, imersa no silêncio, jazendo entre os espectadores e as três veladoras.


Texto ( de Fernando Pessoa) e encenação ( de Alain Olivier): absoluta beleza!


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Do site do Teatro Municipal de Almada:


Em Setembro de 2006 Alain Ollivier, director do Théâtre Gérard Phillipe de Saint-Denis, apresentou na Sala Experimental do TMA a sua encenação de O marinheiro, de Fernando Pessoa: um espectáculo protagonizado pela célebre actriz francesa Anne Alvaro, cuja interpretação Miguel Pedro Quadrio, crítico do Diário de Notícias, considerou “de uma beleza quase lancinante”. Deste espectáculo surgiu o convite para Alain Ollivier dirigir o “drama estático” de Pessoa numa produção da Companhia de Teatro de Almada, com um elenco de actrizes portuguesas. Escrito em apenas dois dias (11 e 12 de Outubro de 1913), O marinheiro nunca chegou a ser representado na presença do seu autor, e mesmo hoje em dia são poucas as encenações desta obra-prima quase desconhecida.Fernando Pessoa (1888 - 1935) é considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, a par de Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o, juntamente com Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX. Por ter vivido a maior parte da sua juventude na África do Sul, o inglês também possui um papel de destaque na sua vida, tendo escrito uma parte importante da sua obra nessa língua. Pessoa teve uma vida discreta, que dividiu entre o jornalismo, a publicidade, o comércio e, principalmente, a literatura, onde se desdobrou em centenas de heterónimos, sendo os mais conhecidos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares: a figura enigmática em que Pessoa se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre a sua vida e obra. Fernando Pessoa morreu em Lisboa, a mesma cidade em que nascera, de problemas hepáticos, aos 47 anos de idade. A última frase que escreveu foi: “I know not what tomorrow will bring..


Intérpretes: Cecília Laranjeira, Maria Frade, Teresa Gafeira

Cenário Daniel Jeanneteau

Máscaras:Erhard Stiefel

Luz: José Carlos Nascimento


3 comentários:

avelaneiraflorida disse...

Méon,

um excerto bem significativo do que será a peça inteira!!!!
O universo Pessoano e ...o nosso!!!
"Brigados" pela partilha!!!!

jasmimdomeuquintal disse...

Agora que pus o cinema em dia vou começar com o teatro, no meio espero dedicar-me ás exposições.
Bom feriado!

LeniB disse...

E aquilo que dizemos entre os dois grandes silêncios é o que marca a nossa efémera existência!!
bjs