5.12.07

VINICIUS DE MORAES



Quando andava na Faculdade vivi dois anos numa residência universitária. O meu colega de quarto, Telmo, costumava ouvir um LP de Vinicius de Morais que tinha dois poemas de que eu gostava muito. Um deles era o conhecido "Porque hoje é sábado".
O outro é este que eu já não via há muito e que encontrei hoje casualmente.
É longo mas muito expressivo, "carregado de quotidiano", como costumava dizer o autor.




Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.




Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina




Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.




Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.




Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.




Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...




Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!




Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.




Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.




Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.




E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!




Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!




Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.




Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.




Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.




Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.



Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.




Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.




Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.




Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.




Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.




Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.




Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!





Vinicius de Moraes

7 comentários:

Teresa Durães disse...

tenho alguma dificuldade em aceitar o Cristianismo...

Méon disse...

Teresa

Bom... é uma perspectiva.
Já agora dou-lhe a minha: não considero este poema uma oração ao deus cristão. Há aqui uma ironia e um humor que funcionam como críticas subtis às crenças religiosas. É como se o poeta nos dissesse: a vida tem coisas tão enigmáticas... tão inaceitáveis... tão contraditórias... tão mesquinhas... tão injustas... tão prosaicas... que só por ingenuidade podemos acreditar num deus que comanda isto.
Pedir piedade, neste caso, é como denunciar e não aceitar resignadmante as incongruências da vida.

A grande poesia é assim: permite leituras diversas. Ou porque é deliberadamente ambígua ou porque explora sentidos ocultos que cabe a cada um de nós desvendar.

Aquilo que li da sua poesia, Teresa, deu-me para concluir que está nesta linha. Por isso a aprecio.

Saudações amigas

Teresa Durães disse...

obrigada. a sua leitura faz-me gostar mais do poema, confesso :)

"a vida tem coisas tão enigmáticas... tão inaceitáveis... tão contraditórias... tão mesquinhas... tão injustas... tão prosaicas... que só por ingenuidade podemos acreditar num deus que comanda isto"

é a minha forma de pensar nas suas palavras

obrigada de novo

Méon disse...

Mais uma vez obrigado pelas suas visitas.
Resto de dia feliz.

avelaneiraflorida disse...

Méon, Meu Amigo,

Vinicius habituou-nos a uma forma de "estar" na vida...diferente de qualquer outra!
Também recordo " Porque hoje é sábado" e do impacto que teve em mim( e tem) desde a primeira vez que o ouvi!!!
Este, é um outro poema! De um somatório de quotidianos que não são tão visiveis quanto parecem!!!! Só mesmo um poeta, e nem todos, conseguem perceber a estreita linha entre "uns" e "outros"...
A propósito deste poema duas imagens me acodem ao pensamento- o filme " Les Uns et Les Autres" de Claude Lelouch e Brecht, com os seus poemas!!!!!
Que tenhas um bom resto de noite!!!!

Méon disse...

De facto, é a ler que a gente se entende...
Obrigado, igualmente.

ronaldocgq disse...

É sempre bom ler um poema de Vinicius. Este eu não conhecia. Ah, gostei muito de seu blog, nele cheguei através do Didaskou. Um belo trabalho que visitarei sempre que puder.